sábado, 5 de setembro de 2009

O nome da dor


                                ... que é impossível ter da vida

                               calma e força.

                             Viver em dor

                            tentar ser forte a todo e cada amanhecer...

                          (Renato Russo)




31 de maio.


Ela já havia decidido que a cocaína seria o último refúgio para os dias de solidão, quando a escuridão da noite lhe penetrasse o corpo frágil de menina, trazendo o medo e o desespero. Andava cansada de sentir aquele gosto amargo na boca e toda aquela dormência que ela já nem sabia se era mesmo dormência, porque já havia até esquecido o que é não estar dormente. Seria bom poder sentir um pouco mais a língua, os dentes, os lábios, e não deixar que a saliva escorresse tanto pelos cantos da boca. Queria também poder falar sem ter aquele nó na garganta, e sem sentir o coração batendo tão violentamente, tão descompassado. Na verdade, queria sentir a vida como ela era antes, com a pureza calma e límpida, ainda intocada, intocável; queria esquecer a euforia, esquecer a tristeza, esquecer que o amargo pode ser tão doce, para que depois tudo pudesse acontecer de novo, aquele verão com o mesmo desejo tão intenso e a mesma meia saudade do que ainda não se foi e do que ainda nem se conheceu, para que a cocaína pudesse então voltar e trazer o mesmo colorido passageiro. E é aí que tudo novamente recomeça, esquecer relembrar esquecer relembrar esquecer... Por isso decidiu que seria só nos dias mais tristes (talvez quando a chuva caísse à tardinha), só nos dias em que a solidão fosse mais profunda.


Se Ana não pensasse assim, é possível que tudo tivesse acabado muito antes. É possível até que tudo tivesse acabado antes mesmo de conhecer o Marcos, e que o Marcos nunca tivesse perseguido as linhas brancas, e que não tivesse gostado tanto e que não tivesse encontrado assim, tão repentinamente, uma morte estúpida. Marcos não desenvolvera, como Ana, toda essa capacidade de esquecer e relembrar. Apenas não queria esquecer. E quando é assim o coração não agüenta, morre de cansaço. Marcos se foi e Ana continua aqui, e sempre que a vejo assim dormindo como agora está, penso que a vida podia ter sido outra, (mais... e mais...) se Ana não houvesse tido a infelicidade de me conhecer.


A tinta da caneta tem cheiro de tutti-frutti. Sei que Ana adora tutti-frutti. E cada vez que beijo sua boca e devoro sua língua eu sinto cheiro de tutti-frutti (apesar de misturado ao cheiro da cocaína). E sua saliva, que é tão doce e tão amarga ao mesmo tempo, e o seu cheiro (que me lembra o sexo e a cocaína), e toda sua pele dormente e tudo o que eu bebo em seu suor, tudo me fazer sentir ainda mais mulher. Porque é a língua dela o que me sustenta, é a saliva dela o que me dá força, e o cheiro de tutti-frutti que sinto em sua boca me faz pensar, só por um instante, que não somos tão impuras, que ainda conservamos ao menos um esboço, ao menos uma sombra, das crianças que um dia fomos.






Não sei se fumo ou se tento dormir. Minhas mão tremem um pouco e o peito palpita , pulsa o meu corpo inteiro. Fico inquieta sempre que preciso dizer alguma coisa e ainda não sei como. Tenho vontade de gritar. Fumo, tento dormir, não consigo. Tenho vontade de sair à rua. É tarde. Sinto-me seca, um buraco sem fundo. Devo estar louca; às vezes só consigo pensar no gosto do sexo de Ana, no sexo de Ana se esfregando em mim com violência. Uma pervertida, eu. E ela, uma criança. Apenas uma criança, uma doce criança.


Sinto uma dor que me espicaça o peito quando penso em Ana. E só eu mesma sei o quanto me machuca o fato de saber que tudo pode acabar assim, tão de repente e sem um pingo razão, de uma forma tão estúpida.


Tenho um espinho dentro de mim, que me rasga toda e me arrebenta as carnes cada vez que respiro. Ana sem poder falar, num corpo que já nem parece o dela; nunca tinha pensado nisso, nunca. Aquela voz calma e sempre doce, um quase sussurro às vezes, me dava a impressão de que duraria para toda a eternidade. Ana sem poder falar. Será que ouve? Sente alguma coisa? A cada dia que passa sinto ela mais distante, e tenho medo do dia seguinte, todas as manhãs são pedaços de angústia, essa mesma angústia que me rói o peito (uma angústia áspera, de pedra, que fere inteira, que me corta e me penetra, e que me faz achar o mais fundo de mim mesma, um fundo escuro, seco, seco...), essa angústia que me faz olhar no espelho e sentir essa vontade de ser outra, uma vontade de sair de mim, que é pra ver se a dor passa, e esquecer a culpa que sinto e a saudade que tenho e o cheiro da boca de Ana, um cheiro que ainda está entranhado na minha língua, no meu sexo que arde, na alma toda.


Cinco gramas, ontem. Sei que não devia, mas foi a saudade do cheiro de Ana o que me fez cheirar. Toquei meu corpo inteiro sentido o amargo doce adentrar-me garganta adentro... as veias a pulsarem, o coração retumbando.




 * * * * *




                                           ... a luz da lua a contemplar teu corpo

                                         sedento, louco de prazer

                                        e desejos ardentes...

                                      (Flávio Venturini)






17 de julho.


Ela já havia decidido manter-se afastada (o mais distante que pudesse) dessa terrível força que nos leva a todo o desperdício que há em querer buscar abrigo na destruição, a machucar-se sem motivos, em lugar de proteger-se no calor da vida, no doce acalanto de uma amizade sincera. Nessa mão amiga que muitas vezes não percebemos que está aqui tão perto, bem do nosso lado, apenas esperando que estendamos a nossa. E tudo porque mergulhamos num maldito fechar de olhos por querer, numa espécie de cegueira voluntária, e punitiva.


Foi por isso que ela desistiu. Por que acreditava estar sozinha, quando não estava. E o que mais me fere é ter a consciência de que eu tenho culpa de ela haver saído dessa calmaria. Tudo por luxúria. Só por luxúria. Porque sou uma depravada e não consigo manter-me por muito tempo longe da devassidão...




(...continua em breve)






Um comentário:

  1. Renato:
    Adorei o conto, adorei o blog!!
    Parabéns e sucesso!!!
    Bjão,
    Clarissa

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