terça-feira, 6 de outubro de 2009

Uma conversa proibida

"Mientras mi abuela miraba diariamente las fotos antiguas, tres o cuatro veces por día, yo empezaba a sentir algo muy raro, como una especie de curiosidad creciente. Ella las miraba y me contaba historias; cada foto tenía su propia historia. Me gustaban las historias y también las fotos antiguas. Después, con el tiempo y la lectura, conocí a Julio, y todo se me aclaró bien. Quizá por eso sea yo hoy un cuentista." (Autobiografía de Alfonso de la Peña, tomo II, cap. XVI, p. 235)



¬– Nunca pude entender muito bem as cores, são tão instáveis, transitórias... – murmurou o pequeno rato, mais para si mesmo do que para qualquer um dos utensílios domésticos que estivessem por ali, atirados pela pia. Mesmo assim, uma xícara velha, que há dias andava suja, esquecida, ainda com um resto de leite coalhado no fundo, contestou:

– As cores são assim mesmo, amigo, variam muito...

E o rato, com uma expressão dura e pensativa, como alheio ao comentário feito pela xícara, continuou.

– Eu podia jurar que ontem, quando estive aqui, a porta do armário era vermelha... e não cinza. Isso tem acontecido muitas vezes, essas mudanças de cores vivas para tons acinzentados.

– Era mesmo vermelha, a porta ¬– confirmou a xícara velha – Mas as coisas não são assim tão simples. A verdade é que as cores não tem culpa. São obrigadas a mudar de tom sempre que sua vivacidade assuste ou incomode alguém. Você sabe de quem eu falo quando digo alguém, não sabe?! Eles ficam cuidando tudo lá de fora, e existem políticas e até mesmo campanhas para que as cores aqui de dentro mudem sempre para tons pardacentos. Você mesmo, ontem, estava todo cheio de pintas roxas, e hoje, entretanto...

Atônito, e com o olhar já um pouco entristecido, o pobre ratinho indagou:

– Entretanto o quê!? Não me diga que minhas cores mudaram!!!

– Ãhn... é... mais ou menos. Quero dizer, você está em processo de transformação.

– Como assim? Ainda posso ver minhas manchas roxas, estão bem aqui! – disse o pequeno roedor, apontando para uma das marcas coloridas imaginárias.

– Sim, meu caro, isso é o que você vê. Isso também é trabalho deles; fazem você continuar acreditando que é colorido quando, no entanto, já está acinzentando. Eles ouvem tudo, sabem de tudo, e fazem o que podem para dominar a vida aqui dentro. A verdade é que temem uma rebelião, por isso é preferível, para eles, que pensemos que tudo está muito bem...

E o rato, cabisbaixo, com lágrimas brotando dos olhos, perguntou:

– Mas como você tem consciência de tudo isso? Como sabe de tanta coisa?

A xícara sorriu.

– Amigo, olhe para mim, sou apenas uma xícara esquecida e suja, ninguém lembra de mim. Fico o tempo todo aqui, observando. Percebo algumas coisas, mas... não posso fazer nada. Além disso, essa pressão que vem de fora para dentro me impossibilita qualquer movimento. Estou como morta, entende? Eles preferem assim, que uma xícara não seja nada além de uma xícara. Minha função é essa, ficar aqui parada com leite coalhado no fundo, até que alguém decida me usar.



Subitamente, ouvem-se passos e gargalhadas trovejantes no corredor. O diálogo pára. A xícara volta a ser xícara, o rato volta a ser rato. As paredes e o chão começam a tremer. Eles tentam arrombar as portas, furar os tijolos, os ossos, a carne. Precisam, de alguma maneira, colocar um freio na torrente do imaginário. Enfiando suas caras medonhas em todas as janelas ao mesmo tempo, gritam repetidas vezes: “a única fonte possível é a realidade!”.

E, grudados atrás das orelhas daquele espécime (o último ainda verdadeiramente vivo), tentam rasgar sua pele, serrar os seus ossos, virá-lo do avesso. Tudo isso porque precisam saber, ansiosamente, qual a razão de ter inventado aquela conversa, que sentido tinha aquele diálogo e qual seria sua relação com o mundo real.

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