"Los hombres me habían dicho, con fuego en los ojos, que yo tendría que pasar por una puerta, donde los dos guardias estarían esperándome[...] Seguí por un camino estrecho, que a veces se dividía en dos, hasta el día en que logré avistar la dicha puerta ¡Pero estaba cerrada![...] Y los guardias, con soberbia, me dijeron que habían recibido órdenes para no abrirla." (Francisco Kiftenn)
Por três vezes eu estive parado junto à porta, sem coragem para entrar. Numa delas, lembro que até levei a mão à maçaneta, girei meia volta, quase abrindo, mas não pude - alguma coisa me obrigava a desistir, a retroceder. Três vezes eu tentara: por três vezes desistira.
E durante muitos e muitos dias (acredito que exatamente por duas semanas), antes de haver tentado entrar, eu estivera observando, através daquela vitrine de vidro espesso e transparente, com olhar atento, quase obsessivo, a figura desengonçada do palhaço de pano que, entre os outros brinquedos, destacava-se, não apenas por sua cara risonha, amarelada e profundamente expressiva, mas pela transparência dos olhos, uns olhos que traziam toda a força que há na beleza de mostrar-se o outro lado, uns olhos em que havia a translucidez do vidro.
Os olhos que passam lá fora, e que às vezes param e observam, têm agora outro sentido, um sentido que só se pode ver daqui. Não sinto como se estivesse apenas aqui dentro, é claro; sei que também ando pelo lado de fora, que meus olhos e minhas pernas também passam, e que ainda também observo.
Mas por muito tempo estive ali, querendo entrar, querendo saber que mistério havia naquela cara pintada, que tristeza tinha ele por debaixo do sorriso. Embora o colorido da roupa e da maquiagem correspondesse a um típico palhaço de circo, alguma coisa havia nele de incomum, que apenas eu podia perceber, pelo muito tempo que fiquei observando. O lado esquerdo do rosto, vez por outra, parecia torcer-se, e o vermelho da boca tornava-se fosco, perdia toda a vida. E pelo translúcido daqueles olhos eu via algo se mexendo dentro, fundo, fundo, e o segredo detrás dos olhos pedia uma aproximação maior, que eu estava disposto agora a enfrentar. Eu queria entrar, e a porta a dizer-me não.
As portas nem sempre são o melhor caminho. E, naquele dia, não sei se por um aumento incontrolável do desejo de tê-lo em minhas mãos (e ver de perto o quanto aqueles olhos eram transparentes) ou por medo de perdê-lo, de perder aquele mistério todo sem saber, decidi que ia entrar. Eu sabia que podia entrar, ainda que a porta estivesse fechada para mim: já havia sentido antes, numa das vezes em que pude ver o algo que se mexia em seus olhos.
As portas nem sempre são o melhor caminho. Por muitas horas (parece-me que das oito da manhã às dez da noite) eu fiquei parado em frente à vitrine, com os olhos grudados na cara verde-amarelada do palhaço de pano. Nesse meio tempo, pude compreender muita coisa. Percebi que o vermelho do nariz e da boca não combinava com nenhuma das outras cores, parecia alheio, artificial. Pude entender também que ele sentia. Inanimado, tinha vida. Mostrava-se vivo. E ele queria que eu olhasse. Queria porque, sempre que eu me afastasse um pouco, a vitalidade transparente dos seus olhos me acompanhava triste, como se me pedindo para voltar. E eu voltava, aproximava-me do vidro, tentava entendê-lo (por vezes tive a impressão de que ele queria dizer-me algo). Como, com aquelas tantas cores tão alegres, ele podia expressar melancolia?!
Eu sabia que podia entrar. Já havia quase entrado algumas vezes, mas contive-me: eu devia esperar a hora certa, o momento exato, (o que não demorou muito para acontecer); logo senti que o caminho se abria, que as possibilidades aumentavam, que o outro lado esperava-me ansiosamente, e os olhos do palhaço cresciam e se abriam e me deixavam ver tão fundo dentro dele que quando dei por mim o outro lado não parecia mais tão outro assim, era como se fosse o mesmo, ainda que o colorido de dentro contrastasse com os tons de cinza do lado fora.
E o efeito não foi assim tão mágico, pode-se dizer que foi até natural, comum. De repente dentro com alívio. Mas é claro que essa naturalidade só foi e só é possível porque estou agora dos dois lados. Estou aqui dentro, estou aqui fora. O vidro continua ali, mas é como se não estivesse, porque a transparência agora é dupla, de dentro para fora, de fora para dentro. E o colorido de dentro, misturado com o pardacento do lado de fora, resulta em cores enigmáticas, extraordinárias, cores impensáveis para quem está apenas fora, ou apenas dentro, cores que são visíveis somente para o olhar que se cruza de frente consigo mesmo.
Talvez o que ficou do lado de fora ainda esteja doente, ainda pense em suicídio. Porque a tristeza com que me olho é medonha, angustiante. Ele sabe (e eu sei) que o palhaço aqui dentro é uma parte nossa, uma parte que nunca imaginamos ver assim, frente a frente.
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