sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Um palhaço na vitrini

"Los hombres me habían dicho, con fuego en los ojos, que yo tendría que pasar por una puerta, donde los dos guardias estarían esperándome[...] Seguí por un camino estrecho, que a veces se dividía en dos, hasta el día en que logré avistar la dicha puerta ¡Pero estaba cerrada![...] Y los guardias, con soberbia, me dijeron que habían recibido órdenes para no abrirla." (Francisco Kiftenn)





Por três vezes eu estive parado junto à porta, sem coragem para entrar. Numa delas, lembro que até levei a mão à maçaneta, girei meia volta, quase abrindo, mas não pude - alguma coisa me obrigava a desistir, a retroceder. Três vezes eu tentara: por três vezes desistira.


E durante muitos e muitos dias (acredito que exatamente por duas semanas), antes de haver tentado entrar, eu estivera observando, através daquela vitrine de vidro espesso e transparente, com olhar atento, quase obsessivo, a figura desengonçada do palhaço de pano que, entre os outros brinquedos, destacava-se, não apenas por sua cara risonha, amarelada e profundamente expressiva, mas pela transparência dos olhos, uns olhos que traziam toda a força que há na beleza de mostrar-se o outro lado, uns olhos em que havia a translucidez do vidro.






Os olhos que passam lá fora, e que às vezes param e observam, têm agora outro sentido, um sentido que só se pode ver daqui. Não sinto como se estivesse apenas aqui dentro, é claro; sei que também ando pelo lado de fora, que meus olhos e minhas pernas também passam, e que ainda também observo.






Mas por muito tempo estive ali, querendo entrar, querendo saber que mistério havia naquela cara pintada, que tristeza tinha ele por debaixo do sorriso. Embora o colorido da roupa e da maquiagem correspondesse a um típico palhaço de circo, alguma coisa havia nele de incomum, que apenas eu podia perceber, pelo muito tempo que fiquei observando. O lado esquerdo do rosto, vez por outra, parecia torcer-se, e o vermelho da boca tornava-se fosco, perdia toda a vida. E pelo translúcido daqueles olhos eu via algo se mexendo dentro, fundo, fundo, e o segredo detrás dos olhos pedia uma aproximação maior, que eu estava disposto agora a enfrentar. Eu queria entrar, e a porta a dizer-me não.


As portas nem sempre são o melhor caminho. E, naquele dia, não sei se por um aumento incontrolável do desejo de tê-lo em minhas mãos (e ver de perto o quanto aqueles olhos eram transparentes) ou por medo de perdê-lo, de perder aquele mistério todo sem saber, decidi que ia entrar. Eu sabia que podia entrar, ainda que a porta estivesse fechada para mim: já havia sentido antes, numa das vezes em que pude ver o algo que se mexia em seus olhos.


As portas nem sempre são o melhor caminho. Por muitas horas (parece-me que das oito da manhã às dez da noite) eu fiquei parado em frente à vitrine, com os olhos grudados na cara verde-amarelada do palhaço de pano. Nesse meio tempo, pude compreender muita coisa. Percebi que o vermelho do nariz e da boca não combinava com nenhuma das outras cores, parecia alheio, artificial. Pude entender também que ele sentia. Inanimado, tinha vida. Mostrava-se vivo. E ele queria que eu olhasse. Queria porque, sempre que eu me afastasse um pouco, a vitalidade transparente dos seus olhos me acompanhava triste, como se me pedindo para voltar. E eu voltava, aproximava-me do vidro, tentava entendê-lo (por vezes tive a impressão de que ele queria dizer-me algo). Como, com aquelas tantas cores tão alegres, ele podia expressar melancolia?!


Eu sabia que podia entrar. Já havia quase entrado algumas vezes, mas contive-me: eu devia esperar a hora certa, o momento exato, (o que não demorou muito para acontecer); logo senti que o caminho se abria, que as possibilidades aumentavam, que o outro lado esperava-me ansiosamente, e os olhos do palhaço cresciam e se abriam e me deixavam ver tão fundo dentro dele que quando dei por mim o outro lado não parecia mais tão outro assim, era como se fosse o mesmo, ainda que o colorido de dentro contrastasse com os tons de cinza do lado fora.






E o efeito não foi assim tão mágico, pode-se dizer que foi até natural, comum. De repente dentro com alívio. Mas é claro que essa naturalidade só foi e só é possível porque estou agora dos dois lados. Estou aqui dentro, estou aqui fora. O vidro continua ali, mas é como se não estivesse, porque a transparência agora é dupla, de dentro para fora, de fora para dentro. E o colorido de dentro, misturado com o pardacento do lado de fora, resulta em cores enigmáticas, extraordinárias, cores impensáveis para quem está apenas fora, ou apenas dentro, cores que são visíveis somente para o olhar que se cruza de frente consigo mesmo.


Talvez o que ficou do lado de fora ainda esteja doente, ainda pense em suicídio. Porque a tristeza com que me olho é medonha, angustiante. Ele sabe (e eu sei) que o palhaço aqui dentro é uma parte nossa, uma parte que nunca imaginamos ver assim, frente a frente.


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