sábado, 5 de setembro de 2009
Ensaio em forma de relato ou relato ensaístico
“Um dia sem rir é um dia perdido”, dizia Charles Chaplin. “E há que ser um riso verdadeiro”, completava. E de fato teve uma vida risonha. Não precisava rir com a boca; os olhos bastavam. Em suma, foi um riso em forma de gente. Se a afirmação de Chaplin faz sentido não sei ao certo. Compreendo a idéia, sinto por ela até uma espécie de simpatia, mas, para ser sincero, não estou nem um pouco convencido de que seja uma verdade absoluta. A propósito, a única afirmação que consigo conceber como “verdade absoluta” é a idéia de que “não existe nenhuma verdade absoluta”. E, neste ponto específico, creio que Einstein não discordaria de mim. E, se por acaso discordasse, cairia no mais puro e profundo paradoxo a respeito de sua própria teoria.
Entretanto, se assim fosse, ou seja, se eu acreditasse sinceramente nas palavras de Chaplin, e nelas encontrasse a mínima identificação, teria de admitir também o fato de que perdi (como quem perde um par de meias ou um guarda-chuva) nada menos do que dez anos de minha vida. Sim, teria de admiti-lo, porque, afinal, há mais ou menos dez anos eu não tenho sequer um esboço de riso ou sorriso, e, de maneira alguma considero estes anos perdidos; muito pelo contrário, foram os melhores e mais bem vividos anos que tive no decorrer de minha vida; os mais alegres, os mais felizes e harmoniosos.
Contudo, quero que fique bem claro que não duvido, absolutamente, das palavras de Chaplin. Acredito que ele ganhava, de fato, os seus dias através do riso, posto que, se não risse, os considerava perdidos. Ocorre apenas que esta não é a minha verdade.
Mas, se durante esses dez anos eu não ri, não é porque estivesse triste ou melancólico. De maneira alguma; a alegria esteve presente sim, pelo menos até o momento em que comecei a escrever nesta folha de papel. A falta de riso não teve relação alguma com tristeza, e, se isso interessar a quem porventura venha a ler este manuscrito (ainda que eu considere esta possibilidade um tanto remota), durante estes mesmos dez anos eu também não chorei. Nem riso, nem choro, e ponto.
Ademais, por aqui eu nunca me deparei com nada que me fizesse rir. Mas que isso não seja entendido às avessas: ter vivido por todos esses anos num lugar onde nunca encontrei coisa alguma que me desse motivo ao riso não me incomoda nem um pouco; as circunstâncias em que vivi, embora não risonhas, acabaram por trazer-me um indescritível bem-estar e um estado de espírito repleto de felicidade, por mais incongruente que isso tudo possa parecer.
Se queres saber, sou sim um ermitão. Isto já deve ter sido notado nas linhas anteriores, mas preferi escrevê-lo mesmo assim, apenas para esclarecer melhor e deixar tudo transparente.
O que acontece, no entanto (e é aqui que começa o meu relato), é que não sou um ermitão qualquer. Não sou um indivíduo anti-social que simplesmente decidiu isolar-se ou afastar-se da vida em sociedade. Tive motivos e razões muito peculiares para decidir deixar a cidade e vir morar aqui nesta ilha, completamente inabitada por outros seres humanos.
Não vou dizer que a decisão que tomei, naquela época, tenha sido fácil. Não; passei por momentos difíceis, dolorosos, por vezes quase insuportáveis. Mas não havia outro modo. Eu tinha uma idéia fixa, um projeto elaborado, algo que devia ser executado a qualquer custo. Enfim, eu sentia o dever, a obrigação de fazer o que fiz, depois de ter pensado tudo o que pensei.
Se Dostoievski fosse ainda vivo, certamente não me classificaria com um “homem de ação”; creio que veria em mim um típico “homem de pensamento”. E é provável que esteja aí o princípio de tudo, o motivo pelo qual estou narrando agora os fatos, dispondo-me, deliberadamente, a deixar registrados os resultados de minha experiência. Sim, porque pensar sempre me foi demasiado penoso, sofrido, como facas cortando as minhas carnes. E, seja algum maldito destino ou por pura herança genética (ou ainda por outro motivo qualquer), tive de carregar comigo, desde a mais tenra infância, o terrível hábito de pensar demais, excessivamente. Não sei, em verdade, se posso chamar isto de hábito. Talvez fosse melhor ter usado a palavra “fardo”. Mas deixemos como está, não vou alterar o que já está escrito. Além disso, para ser sincero, é bem possível que a palavra “hábito” venha a fazer sentido no decorrer dos fatos, podendo talvez cumprir um papel relevante em relação às minhas conclusões finais.
Mas, hábito ou fardo (por hora não nos interessa escolher qual é o termo mais adequado), o fato é que o pensamento, no meu caso sempre exagerado e fora de controle, só me fez sentir dor, remorso, vergonha, um cruel e incontrolável sentimento de impotência, e uma série de outras sensações ruins e indesejáveis.
Um homem de pensamento, sim. Um pobre e desgraçado homem de pensamento. Assim fui, como o “homem do subsolo”, de Dostoievski. Exatamente como ele. Sempre que encontrasse um muro em minha frente, como obstáculo, eu nunca escolhia o caminho mais fácil. Poderia, até, caminhar um pouco mais, e dar a volta pelo muro, passando livremente, ou quem sabe até mesmo saltar por sobre a barreira. Eu podia, porém jamais consegui. Tinha sempre de jogar-me de cabeça contra o muro, feito um touro enlouquecido, com raiva, força e violência. O que ocorria é que nunca me bastava apenas ultrapassar uma barreira; eu sentia a necessidade (quase sempre voraz e irrefreável) de compreender o porquê de ter-me deparado com qualquer obstáculo que fosse. Em síntese, eu precisava saber por qual razão ele havia sido posto justo em meu caminho.
Bom, eu era assim. Por trinta anos eu vivi e aceitei a minha natureza de pensador, de um ser racional que precisava buscar sentido e explicação para tudo. Cada movimento, cada gesto, cada objeto que meus sentidos pudessem perceber geravam, automaticamente, analogias, horas e horas de racionalizações, idéias que originavam mais e mais idéias, como numa reação em cadeia. E no final de tudo, o que sempre me restava se resume em feridas profundas, angústia, dor e desespero. Mas nem tudo se resume em lágrimas; o tempo não falha e nada acontece por acaso. Foi justamente num desses momentos em que eu me encontrava atordoado por uma torrente de pensamentos, em busca do sentido da vida e da existência humana, que acendeu-se uma luz. Uma idéia, a princípio. Na verdade, a última e derradeira grande idéia que tive, e que me transformou por completo. Nasceu ali, naquele momento, um novo ser.
Eu era, eu fui este homem que acabei de descrever. Entretanto, por mais inusitado que pareça, voltei a ser o antigo homem (aquele dos pensamentos exagerados) no exato instante em que decidi escrever estas linhas. Isto se compreenderá logo; cada coisa a seu tempo. Falemos agora da minha excêntrica (porém singular) idéia.
Veio como uma conjetura, uma simples suposição. E surgiu tão rápida como relâmpago. Ocorre que os relâmpagos são clarões. Apenas clarões. Um segundo depois a escuridão reaparece. E o que eu precisava (e acabei por conseguir) era de mais e mais luz. Uma luz ininterrupta.
Lapidei e poli a minha inesperada hipótese, reuni os indícios e argumentos necessários, e fiz da conjetura uma teoria, o que exigiria, de minha parte, uma demonstração, um busca por evidências empíricas que comprovassem o que, previamente, havia sido teorizado.
Tal teoria consistia, em síntese, na crença de que o homem, desde as mais antigas civilizações, havia deturpado e corrompido aquilo que o próprio homem afirmava (e segue afirmando) diferencia-lo dos outros animais: a razão.
O meu desafio, então, era convencer-me, na prática, de que a razão humana fora distorcida pelo homem, a tal ponto que acabou ocorrendo uma total e completa inversão de valores, de maneira que as características mais intrínsecas da razão passaram a ser entendidas às avessas.
De acordo com a teoria (cujos argumentos logo serão relacionados), a capacidade de racionalizar que o homem desenvolveu com o passar do tempo não consiste em uma virtude, e sim (por mais paradoxal que, a princípio, isso possa aparentar) no principal defeito de caráter que homem já pôde manifestar em toda a história da humanidade.
Isto pode explicar-se pelo simples motivo de que é deste defeito que nascem e se proliferam todos os outros. Seria, mais ou menos, no que se refere às deformidades morais do ser humano, como se a razão fosse o general de um grande exército, que não apenas recruta e comanda os seus subordinados, mas que também é responsável por cada uma de suas ações. Assim, concebendo a razão da maneira como vem sendo exposta em minha teoria, poder-se-ia facilmente considera-la o mais poderoso defeito que possui o ser humano, e talvez, (ainda que isso possa conter um quê de profecia) o único que tenha a capacidade e a possibilidade de levar-nos à autodestruição.
(...continua em breve)
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