O cheiro de merda já estava espalhado pela casa toda. Tudo fedia muito, até mesmo o quarto, que antes parecera intransponível, invulnerável. O cheiro de merda que havia na casa me ardia o nariz.
E quando vi que todas as minhas roupas estavam sujas de merda, e que até nas camisas de seda havia merda sujando tudo, e que nas roupas de cama espalhava-se também a merda, quando vi que tudo estava contaminado, tive ainda uma surpresa: um homem vestido de branco que cheirava a talco apareceu na porta dizendo que eu não poderia nunca mais livrar-me do fedor e da sujeira, e que se algum dia eu tentasse jogar fora aquelas roupas todas em que havia tanta merda podre eu seria castigado.
Que na sala e até mesmo na cozinha houvesse tanta merda tudo bem, mas agora que eu sabia da imundície em que se encontrava o quarto, tudo parecia mesmo perdido.
Como eu poderia sair à rua se minhas roupas estavam sujas e fedendo a merda? E mesmo que eu saísse nu, o cheiro estaria ainda entranhado, tudo porque no quarto também havia merda, também havia o maldito fedor.
E o outro sentado, a escrever. Parece inerte, indiferente às mudanças que temos sofrido. Afinal, qualquer mudança que possa ocorrer comigo diz respeito também à ele. Mas é sempre a mesma coisa, ele prefere acreditar que não acontece nada, que tudo é mesmo sempre igual. Nos últimos tempos, ele nem me olha muito. Tem falado comigo muito pouco, quase nada, apenas o necessário para que sigamos vivendo. Decidiu isolar-se, como se pudesse viver sem mim. Desfez-se de todos os espelhos da casa, e parece não sentir esse cheiro horrível que cresce cada vez mais.
O tempo passando e o mesmo maldito odor a entranhar-se em mim, nas coisas, no ar da casa toda. E com a casa inteira contaminada eu não podia defender-me, todo e qualquer esforço seria em vão.
Decidi deitar-me, procurando respirar, o mais que pudesse, pela boca. Assim o cheiro que invadia minha alma e meus sentidos era menos forte, rasgava minhas entranhas um pouco menos. E depois de alguns dias assim deitado, sempre olhando fixamente para o teto, um teto branco que devia estar também fedendo a merda, baixei meus olhos um pouco (uns olhos já cansados e duros e secos de tanto olhar pra cima), olhando em direção ao ventre, e tive uma surpresa aterradora.
Meu abdômen havia crescido muito, e minha pele estava toda rachando-se, com uma coloração estranha, um pouco arroxeada. Cheirei minhas mãos, minhas unhas, meu hálito. Agora tudo fazia sentido. Não era da casa, nem das roupas, e sim do meu próprio corpo que se originava o fedor. Eu estava apodrecendo, e sentia que, dentro do meu ventre, algo parecia vazar dos intestinos para dentro de minha própria cavidade abdominal, uma espécie de líquido. Eu estava apodrecendo.
Não tive medo. Sabia que pelo menos uma parte minha aproximava-se do fim (já que ele havia decidido não se envolver, vivendo no seu mundinho fechado, como numa pequena farsa). Não havia mais o que fazer. Continuei deitado por um tempo, tranqüilo, até que percebi que metade da minha perna esquerda já se havia transmudado totalmente. Um grande bloco marrom. Levantei-me. Minha perna se desmanchou no piso. O corpo inteiro mudando de cor, as partes caindo, juntando-se ao grande monte.
Sinto agora esta minha parte dividida em milhares de outras partes minúsculas, sinto minha vida pulsar em cada larva que caminha pelo chão. Nunca pensei que, sendo uma larva, ou milhares de larvas, continuaria pensando. Sigo pensando e continuo sentido o cheiro, enquanto o outro escreve, sentado, sem nenhuma mudança aparente. Comunicamo-nos, ainda. Ele sabe que nós estamos aqui no chão, caminhando, comendo os restos do que um dia fui. Ele continua vivendo normalmente, por vezes até sorri, conversa consigo mesmo, mas não pára de escrever. Tudo é ilusão: nós, agora larvas, sabemos que para ele também não há muito tempo. Já começa a nascer um novo cheiro, um cheiro ainda mais podre, que exala do seu corpo. Sabemos que ele pensa não ter sido contaminado, que acredita estar a salvo, mas em breve chegará o momento em que estaremos novamente juntos, aqui no chão, unidos, numa única massa disforme.
o saber do que se fala muito importante . vidas assim que se desmancham e outras que se reconstroem apartir das destruiçoes... por isso esamos lutando para sair da MERDA... HENRIQUE MENDES
ResponderExcluirÉ feito um golpe que tira o ar, o odor que invade o ambiente anunciando a mudança, seja ela qual for, seguimos em mutações paralelas, porém o aroma de café me convida a seguir tua escrita sempre mais...
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