Foi justo naquela tarde, precisamente na véspera do meu quadragésimo primeiro aniversário, que todo este estranho pesadelo começou. Parece-me que não chovia, ou, se chovera, havia sido pouco. Lembro-me, porém, com perfeita nitidez, que era uma tarde bastante cinza, carregada, e que o frio lá fora, cortante e asperamente agressivo, congelava tudo. Eram cinco horas da tarde... São cinco horas da tarde... Sempre serão (e isto me assusta, a ponto de gelar-me até o mais profundo dos ossos) cinco horas da tarde, daquela tarde, desta mesma tarde, de uma tarde sem fim. As estátuas lá fora (assim as chamo porque, dessa forma, pareço tranqüilizar-me de certo modo) continuam duras, rígidas, em posições que me deixam cada vez mais desesperado – posições que parecem esboçar um movimento, que tentam como que avisar-me de uma ação iminente. Mas é só ilusão. Sinceramente, no mais profundo de meus nervos, sinto que não irão se mover. Alice continua ali parada, alimentando os peixes, que também não se movem. Contudo, o que mais me deixa perplexo e sobremaneira incomodado é aquele maldito filete de comida que pairou no ar, imobilizado, e que escorre da mão semi-aberta de Alice e toca, delicadamente, de maneira quase imperceptível, a superfície lisa e inerte da água; uma água que não apresenta qualquer sinal de ondulação. Não sei ao certo quantos dias (ou serão semanas?) transcorreram desde aquela tarde cinzenta. Torna-se, quanto mais o tempo passa (se é que o tempo, pelo menos da forma como o conhecemos, de fato ainda existe), cada vez mais difícil referir-me a qualquer fato que apresente alguma conexão com aquela maldita tarde. Isso tudo porque sinto, juntamente com essa quase insuportável angústia, não possuir recursos para aludir a esse dia. Poderia dizer, por exemplo, “esta tarde”, tomando como referência a inércia de tudo o que está, neste exato momento, ao meu redor; ou, igualmente, “aquela tarde”, haja vista a distância temporal que sinto existir entre o instante em que escrevo estas linhas e a ocasião em que tudo parece ter-se transformado. Entretanto, talvez nada se tenha transformado; é possível que tudo, em verdade, tenha simplesmente parado de transformar-se, e que seja eu o único a seguir pulsando, vivendo, mudando e movimentando-me. Mas não. Eu até pensaria isto se não tivesse, algum tempo atrás (não sei dizer se horas ou dias), escutado aquele estranho ruído que veio subitamente do porão. A primeira sensação que tive foi de extremo pavor, uma espécie de vertigem, seguida de um intenso tremor nas pernas, acredito que pelo simples fato de que meus ouvidos já se haviam habituado profundamente, e não sem um natural esforço de minha parte, ao silêncio absoluto. Sentei-me no sofá. O coração batia-me com violência, como se quisesse saltar-me peito afora. E como foi penoso levantar-me! Com muito esforço, porém, agarrando-me às bordas sofá, coloquei-me de pé, e, neste exato momento (apenas alguns poucos instantes depois de meus tímpanos haverem captado aquele misterioso rumor), um outro sentimento invadiu-me o espírito. Senti não sei que espécie de euforia, que foi aumentando, quase a ponto de tornar-se incontrolável. A simples idéia de que “alguém” ou “alguma coisa” poderia estar-se movendo dentro daquele porão, viva, incólume, ainda não afetada pelo estranho fenômeno, enchia-me de uma alegria esquisita, o que me colocou nos lábios um sorriso parvo, que talvez tivesse um aspecto um tanto doentio. Então eu não seria o único. Não seria o único ser ileso àquela terrível paralisia. Haveria outro, ou (quem sabe?) até mesmo outros iguais a mim, imunes como eu. Caminhei, tomado por uma curiosidade aterradora, porém não sem conservar certo medo, em direção à porta que dava acesso ao porão... A cabeça, mergulhada num turbilhão de pensamentos, dava voltas, doía-me até. Vagarosamente, e com um crescente receio a mordiscar-me o rabo do espírito, fui-me aproximando. O medo crescia. Crescia. E, de repente, do rabo foram-se também as pernas e o resto todo. Acabei por sentir-me, outra vez, submerso num violento estado de pavor e desatino. Mas continuei, segui aproximando-me. “Há de ser...”, pensava, “há de ser alguém... alguém com quem eu possa conversar... há de ser, há de ser...”. E assim tomei um pouco de coragem e pus, ainda que timidamente, a mão na maçaneta. Foi quando um mau-pensamento, um maldito mau-pensamento me gelou a espinha: “Mas... e se não for!?”, cogitei, “e se não for ninguém, e se não for NADA!!!” Certamente eu havia empalidecido. Meu rosto parecia como que de pedra, e um suor abundante e frio encharcava-me a roupa. “E... se for tudo apenas... apenas... loucura da minha cabeça, um simples devaneio?!”, pensei, retirando a mão da maçaneta. Não. Eu não podia entrar. Não podia admitir a simples possibilidade de que tudo pudesse ser apenas fruto da imaginação; seria por demais doloroso. Eu já havia sofrido tanto nos últimos tempos que não podia arriscar. “Não entro. Então está decidido, não entro”, disse para mim mesmo, sinceramente resolvido a não adentrar e, já no mesmo instante, dando as costas para a porta e caminhando na direção contrária. Mas foi justo aí que escutei, outra vez, e agora um pouco mais nítido que antes, o tal barulho. Era como se estivessem derrubando um caixote ou coisa semelhante. E, logo em seguida, ouvi, claro como esta folha de papel em que agora escrevo, um ruído de pisadas. Eram pisadas, eu tive certeza. Pisadas na escadaria do porão. Súbito, corri em direção à porta, agora sem esperar que pensamentos maus me impedissem de abri-la. Girei a maçaneta e escancarei-a, descendo imediatamente uns dois ou três degraus...
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Mais vivos do que nunca, no final da longa escadaria, pude distinguir aqueles dois pequenos olhos brilhantes, e prontamente os reconheci. Eram aqueles mesmos olhos que tanto me haviam incomodado, torturado, hipnotizado. Eram olhos maus. E, não sei por que razão, eu os havia esquecido por completo assim que começara o período da inércia. Desci as escadas bem devagar. Ficamos parados, frente a frente. Eu, sem dizer palavra, sentia-me perplexo por não haver pensado que, por certo, só poderia ser ele. “Como não lembrei dele, como?!”, eu me interrogava, numa angustia que parecia não ter fim. Narciso olhava-me fixamente, como sempre fazia, numa aparente tentativa de hipnotizar-me. Sua pelagem amarelada realçava-se na escuridão da sala. Inesperadamente, soltou um grunhido medonho, e ficou caminhado de um lado a outro, na minha frente. Depois, como numa crise de nervos, começou a correr de maneira estranha. Ia até o armário e tornava a aproximar-se de mim, como se me chamasse. Nunca havia agido com essas maneiras, nunca. E, pela primeira vez em muitos anos, confiei em Narciso, e até me pareceu que ele tentava avisar-me sobre alguma coisa. Eu já teria matado o gato há muito tempo, não fosse por Alice, que insistia em defendê-lo, em dar razão a ele, por ocasião de nossas terríveis brigas. Desde que sofri aquelas dolorosas mutações, desde o dia em que me tornei outra pessoa, passei a odiá-lo. Porque ele foi o único que soube, o único que soube de toda a verdade, foi ele o único que assistiu à minha decadência. Como odiei Narciso! Por diversas vezes estive a ponto de matá-lo. Era o meu verdugo, o meu algoz. Eu o odiava, creio que ainda odeio, ainda que agora entenda de forma muito mais clara tudo o que aconteceu.
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Narciso insistia em emitir aqueles grunhidos assustadores e continuava a acercar-se do tal armário. Parecia mesmo preocupado com alguma coisa. Voltava até mim, rodeava-me as pernas, e corria novamente até o armário. Decidi então verificar se havia algo de interessante na agonia do gato. Abri as portas do armário. Havia, numa prateleira suja e empoeirada, um velho livro. No mais, estava vazio. Agarrei o livro, limpei um pouco do pó e fui abrindo-o devagar. Narciso parecia agora um pouco mais calmo. Porém seus olhos acompanhavam todos os meus movimentos com muita atenção. Comecei a perceber que havia algo de estranho. As primeiras páginas estavam em branco, mas continuei folheando o livro. Nada. Somente papel em branco, já um tanto comido pelas traças. Mas eu não desisti, vasculhei-o até a última página, e tive então uma surpresa.
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Foi justo na última página do livro, depois de tê-lo folheado inteiro, que encontrei um pequeno texto, de mais ou menos vinte linhas. Não ouso repetir aqui o que havia naquela página, só posso dizer que aquilo me deixou tonto, assombrado. Um segundo e o universo inteiro veio abaixo. Senti-me vazio, sem sentido. Nada mais parecia ter coerência. E, estranhamente, um outro sentindo, até então desconhecido, parecia nascer. Nesse momento, Narciso, num impulso, subiu correndo a escadaria. Não hesitei e corri atrás dele, ainda com o livro na mão, e quando cheguei ao primeiro piso percebi que ele me esperava, observando-me, agora calmamente, sentado perto da porta de minha biblioteca. Caminhei devagar, não sem conservar certo temor, e adentrei.
Nenhum livro! Nenhum maldito livro! As prateleiras estavam todas vazias. Procurei, arredei estantes e escrivaninhas, levantei tapetes até, como num acesso de loucura, mas nada encontrei. Vasculhei minhas gavetas em busca de anotações que havia feito; tentei, em vão, encontrar esboços de contos e romances meus; procurei por agendas, mas não havia nada: minha biblioteca estava vazia. E tudo, dentro de casa e na rua, continuava ainda sem se mover. Reli a maldita página do livro empoeirado, fiquei matutando por um tempo. Desci novamente até o porão. Narciso sempre a acompanhar-me. Retornei e sentei-me no sofá. Por que diabos alguém deixaria duas centenas de páginas em branco e escreveria, na última página, essas vinte linhas assombrosas. Foi então que entendi. As páginas em branco, o sumiço dos livros e dos meus escritos, tudo começou a se encaixar. Agora, neste momento, em que tudo parece esclarecer-se, me parece estranho também que um homem guarde centenas de livros em uma biblioteca e, ainda assim, continue escrevendo outros livros. Serão esses escritos NOVOS livros ou os MESMOS livros repetindo-se? Não importa, tudo o que pode ser escrito pelo homem encontra-se naquela página de vinte linhas, mas sem as páginas em branco não somos nada. Quando cheguei a essa conclusão, percebi que o filete de comida que caía da mão de Alice, e que antes estava paralisado, começou a se mover. A comida tocou a água e produziu ondulações, eu pude ver isso com muita clareza. Corri até a biblioteca e lá estavam todos os livros de volta. Abri as gavetas e encontrei meus escritos. Pelas janelas pude ver as pessoas andando e a neve caindo. Então Alice veio até mim, sorrindo, e beijou-me a face: - Você parece preocupado. Está suando. Houve alguma coisa, meu amor? Demorei um pouco a responder, agora quem se sentia petrificado era eu. - Não, Alice, agora está tudo bem. Nós estamos bem. Eu menti. Confesso que menti para Alice. Ela estava bem. Mas eu não. Para mim, ainda são cinco horas da tarde daquele mesmo dia gelado e nebuloso.
ótimo muito bom Parabéns Renato !!!!
ResponderExcluirMuito bom , o Renato tem uma inteligencia impar, sucesso continue sempre escrevendo para nos.
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