José é Homem até as entranhas da cabeça aos pés. Os outros, os que vivem na cidade, têm cinco dedos robustos em cada mão, dentes bons e uma mordida tão forte capaz de mastigar moendo tudo. Mas José tem poucos dedos gastos carcomidos, uns dois ou três em cada mão, e já não pode apertar quase nada. Os dentes, já os perdeu quase todos, e sua mordidinha é tão fraca que já não pode nem roer os duros ossos...
José sempre quisera ter dentes bons e dedos fortes, muitos muitos dedos fortes... Não por achar bonito e elegante não ser Humano, mas apenas pela necessidade da sobrevivência, para dar continuidade à sua espécie. Mas agora ele sabe que é impossível conseguir próteses; José está velho e doente, e não há mais tempo para nada.
II
O sol começa a despontar no horizonte e José sai de sua toca. A fome aperta ainda mais. Na parada de ônibus, outros Homens esperam com rostos doentes barbas crescidas e olhos cansados de uma noite mal dormida e fria. Esperam em silêncio, como zumbis. Todos esses poucos Humanos que ainda restam foram contaminados pelo vírus letal. A moléstia os enfraquece a passos lentos, e para eles não há defesa. Para os não-Humanos, entretanto, esse vírus não é nem um pouco prejudicial; pelo contrário: ao serem contaminados ganham ainda mais vigor (trazem o vírus encubado e se alimentam dele).
III
O ônibus chega e os Homens entram calmos calmos com movimentos maquinais. No primeiro banco está sentado um senhor gordo, de chapéu largo, camisa xadrez e botas muito lustrosas. Este senhor não é um Homem, mas se parece com os Homens, apenas por fora. Há vários outros de sua espécie, aglomerados em sua volta, protegendo-o de uma eventual situação de perigo. A entrada de José e dos outros Homens parece não agradar a este senhor, que os olha com cara feia e diz para os outros não-Humanos:
“Fiquem atentos, já chegaram essas coisas, essas criaturas nojentas!”
José está cansado, as pernas tremem, tremem. Ele olha para os bancos do ônibus, que, com exceção daquele em que o senhor gordo esparrama o seu pesado corpo, estão todos vagos.
“Que tal se eu me sentasse um pouco?... estou tão cansado...”, pensa José.
De quando em quando, o senhor gordo olha para os Homens com arrogância e faz: “humm!”. José reflete mais um pouco e, finalmente, senta-se num dos bancos, sentindo um alívio profundo nas pernas doloridas. Porém os outros Homens nem se arriscam, continuam de pé. O senhor gordo de chapéu largo, ao perceber que José está sentado, recebe aquilo como uma afronta:
“Hei! Mas o que é isso!? Que absurdo! O que é que você está pensando, coisa maldita!? Levante já este traseiro sujo do meu banco!”
José não compreende nada e fica atordoado.
“Mas, senhor, os bancos estão todos vagos, e eu estou tão cansado... Sou um homem velho e magro, e o senhor até que está bem gordo...”, responde José, humildemente, ao que o senhor logo rebate:
“Não me interessa, seu atrevido! Se eu comprei todos os lugares, então todos os lugares são meus, e não quero que nenhuma coisa inútil e insolente como você coloque o rabo imundo nos meus bancos!”
Nesse momento, o motorista, acostumado com essas situações corriqueiras, olha para trás sacudindo a cabeça e apertando os lábios, com desdém.
IV
José desce do ônibus no centro da cidade e vai caminhando pelas ruas, procurando alguma coisa para catar (o tão procurado lixo daqueles que não são Homens, mas que se parecem com Homens). Esses outros seres esbarram em José, mas nem o percebem. É que José não usa chapéu de abas largas, não possui botas lustrosas de couro duro, e o seu casaco está muito velho rasgado e quase já não esquenta Nada.
José segue pela calçada, a fome aumentando a fome, os poucos dedos impotentes com vontade de apertar, a mandíbula desdentada e fraca sentindo um desejo tremendo de morder morder mordeeeeerrr. Mas ele não pode. José sabe que tem de procurar algo bem macio e que possa ser engolido inteiro, de uma única vez. Saborear o alimento é coisa que José nunca conseguiu: como todos os outros Homens, já nasceu meio desdentado , e sua língua é tão dura e tão seca que ele já nem sente gosto nenhum de Nada Nada...NADA.
José sente o frio batendo no rosto emagrecido pela fome estalando na pele um açoite, mas continua calmo andando lento. Súbito, José sente uma dor doída dentro algo como um quebrar de ossos. Ele pára, leva a mão ao peito, engasgando com aquela dor tão forte tanto. José tenta gritar alguma coisa, mas a voz sai baixinho, muito baixo mesmo, um quase sussurro:
“Ajuda...Ajuda...”
Ninguém o ouve. Não há por perto nenhum Homem: todos que estão por ali são daquela outra espécie. E a rua um turbilhão, num caminhar contínuo de criaturas se esfregando umas nas outras. Numa esquina, dois sujeitos parados conversam alto, soltando gargalhadas.
“Ajuda...Ajuda...”
Ninguém. José tenta avançar um pouco mais, um pouco mais apenas. Aproximando-se dos dois sujeitos que conversam rindo alto, José implora:
“Ajuda...”
Mas eles continuam conversando, rindo cada vez mais alto. Há outras criaturas pelas ruas também, e quem olha para essas criaturas com o olhar desatento pode até dizer que são feitas de carne e osso, mas é pura ilusão: o interior de seus corpos é formado por tilintares de metais brilhantes e suas peles constituem-se de papéis coloridos camuflados, pintados com cores postiças de inúmeros números infinitos. Alguns limpam as calçadas, desinfetando tudo tudo e arrancando as plantinhas que nascem por entre as pedras com suas folhinhas verdes cheias de vida, outros esfregam obsessivamente os vidros das vitrines das suas lojas, deixando-os cada vez mais transparentes, quase invisíveis ao olho Humano.
José, sentindo no peito aquela dor terrível, tenta agarrar-se aos ombros de um dos rapazes que conversam rindo alto. Mas ele nem se importa. Sem olhar para baixo, empurra José com suas mãos de cinco dedos fortes, afastando-o como quem afasta algo inútil. José cai logo adiante, e como se nada tivesse acontecido, os dois rapazes continuam conversando rindo muito alto.
“Ajuda...Ajuda...”
José agoniza. Muitos passam por ele na calçada, tropeçam no seu corpo, machucam seus braços e pernas, esmagam os poucos dedos fracos corroídos que possui. E não param; seguem em frente, na eterna busca dos tilintares metálicos vitais, sorrindo com seus dentes rijos e pensando: ”Vejam só como eu posso morder bem forte! Tenho uma mandíbula de ferro!” O mesmo pensamento ecoa pelas outras mentes não-Humanas:
“...mandíbula
de
ferro...
ferro...
FERRO...”
E José, pisoteado, implora:
“Por favor...estou morrendo...”
Nada. Vozes estrondosas gigantescas abafam os sussurros de José com gargalhadas trovejantes. Ele vai perdendo os movimentos. A dor é tanta, mas tanta, que já não há onde o que doer em lugar nenhum. A visão começa a turvar-se e o seu corpo vai diminuindo diminuindo cada vez mais...mais...mais... Agora José é um único ponto minúsculo bem no meio do seu próprio peito entrando num buraco escuro, que vai sumindo, sumindo, até virar um Nada.
Os outros que não são Homens mas que se parecem com Homens continuam pelas ruas, caminhando, passando por José, tropeçando em seu corpo quase sem vida, espezinhando, esmagando, sufocando José.
Nesse instante, uma criatura passa pela calçada carregando uma pilha de copos. Esses copos estão cheios de um líquido dourado e viscoso. O líquido transborda mas os copos continuam Vazios, Vazios. De repente a criatura esbarra em José e derruba os tais copos, quebrando-os em mil pedaços. Então, esse ser que não é Humano grita:
“Que merda! Quem foi que colocou esse entulho na calçada!? É preciso tirar essa coisa daí, isso está atrapalhando!”
Mas José agora já nem sente nem sofre nem pensa: o pontinho minúsculo que já era um Nada passou do Nada e agora é só a morte. E ali mesmo José apodreceu secou desapareceu voltou ao pó nunca mais foi visto e agora tudo é loucura e passou dos limites muito mesmo tanto quanto nunca antes.
V
E assim pereceu José, o Homem. O pai do Homem e o pai do pai do Homem tiveram o mesmo destino, e logo os irmãos de José, os outros Homens, perecerão também, dando lugar a essas novas criaturas, tão mesquinhas quanto orgulhosas cruéis e arrogantes com mordeduras fortes e muitos dedos dedos dedos de um metálico aperto duro e frio.