sexta-feira, 18 de maio de 2012

WHONJNOHW




Duas baratas vivas em cada prato: mesa posta. Duas baratas vivas e gordas em cada prato e eu parado junto à mesa sem coragem de sentar. E Ana sorria levando à boca uma metade de barata reluzente, ainda viva. “As baratas não morrem nunca, mesmo quando perdem a cabeça continuam vivas”, pensei. Duas baratas em cada prato, agora uma e meia. Duas baratas só bastavam. Mas. Os pratos contaminados e a boca de Ana mastigando aquele inseto é que me deixavam aterrorizado. Só as baratas já bastavam. E se eu caminhasse pelas ruas, baratas. E se eu chegasse em casa, baratas. E se eu dormisse um pouco, baratas. Sempre baratas. E agora Ana insistindo tanto em comer baratas na minha frente, e como se fosse pouco ainda enche meu prato com duas baratas negras avermelhadas gordas gordurosas.

- Whonjnohw. Carlos Edil Whonjnohw. Como se pronuncia esse sobrenome? É tão...tão...diferente.
- Tenho medo - eu disse.
- Como?
- Tenho um medo terrível de baratas. Está ficando insuportável. E agora lá em casa estão comendo baratas, a Ana está comendo baratas na minha frente só pra me provocar e os pratos estão ficando cada vez mais cheios de baratas gordas com asas enormes...
Fui direto ao ponto. Ele não precisava saber como se diz o meu nome. Nem eu mesmo sei. Só sei que tenho medo. Tenho medo de alguma coisa, acho que de baratas principalmente. Foi por isso que eu fui até lá e comecei a falar tudinho pra ele porque achei que ele sabia o que fazer. Apenas por isso.
- Desde quando isso tem acontecido? - ele perguntou, não sei se achando que eu era louco mas com cara de quem achava que eu era louco.
- Agora também nos copos d’água. Tem barata nos copos e eu não posso mais beber água. Tenho sede às vezes e não posso beber! A Ana bebe, não se importa, não tem escrúpulos.
Que importava desde quando!? Importava mesmo é que as baratas já estavam nos pratos e nos copos e na mesa e na boca de Ana.
- Quem é Ana? Por que você diz que ela tem comido insetos?
Senti que ele duvidava.
- Olha, estou procurando ajuda, não agüento mais. Vê se acredita em mim. Tem baratas lá em casa por todos os cantos, até na privada, debaixo do colchão, e a Ana é a porra da minha mulher que agora deu pra comer barata!!! É isso mesmo, come baratas e coloca baratas no meu prato também que é pra eu comer junto com ela, mas eu não como não que eu não sou doido que nem você tá pensando.

E foi uma vez só. Nunca mais voltei lá. Devia ter voltado, mas não. É culpa minha mesmo, eu sei, ele só perguntava tanto porque isso é o trabalho dele, mas eu não queria que perguntasse tanto, queria mesmo era falar das baratas e dizer o quanto elas me fazem chorar e que agora nem chorar eu posso mais porque a Ana vem com uma barata na mão dizendo: “Come! É bom, cê vai ver como é bom.”

Às vezes pareciam ir embora, mas voltavam sempre. Ana também voltava sempre, sempre com baratas, com as malditas baratas. Whonjnohw. Gostava de me chamar assim, por esse sobrenome que ninguém sabe dizer. E eu via o deboche naquela sua voz: “Whonjnohw, Ana está de volta!”. E voltava e trazia de volta também as baratas e o meu medo também voltava sempre com elas.
Um dia sentou na beirada da cama bebendo um copo d’água, e eu vi que no fundo do copo tinha uma, bem gorda e mexendo as patas. Então eu gritei quase chorando “Ana, tem uma... uma bar...”, mas ela não me ouviu e foi bebendo tudo e engolindo tudo aquele bicho entrando passando pelo meio dos seus dentes enquanto eu tremia, soluçava, aterrorizado.
E quando a Ana caminhava pela casa sempre tinha uma fila de baratas caminhando atrás dela. E o estranho de tudo isso agora já não eram as baratas (que o medo eu sempre tive), o bicharedo que eu via pelos cantos, formando grandes manchas negras debaixo dos travesseiros, passeando por cima das escovas de dente; a existência daquelas criaturas que se moviam ansiosamente por todos os lados tornara-se comum. O próprio desconforto vivido por tantos anos de noites insones suores taquicardíacos ofegantes já não era o mesmo; desadoecia um pouco. Mas dava lugar a essa outra estranheza: a Ana quando tirava a roupa os bichos saltavam que fazia barulho. A Ana quando se deitava ficavam os bichos correndo por cima daquele corpo, um corpo que já até cheirava a baratas. E as baratas que antes adoravam cantos, que escondiam-se debaixo das coisas procurando escuros, as baratas que de madrugada insistiam em fazer barulho até que eu acordasse apavorado, todas elas reuniam-se em posições estratégicas, sempre junto de Ana, e Ana com ovos de barata debaixo das unhas continuava pondo a mesa, bebendo a água, tirando a roupa. Ana nascia baratas a cada dia e eu não suportava mais o carcomido que aquela angústia me causava ao peito.

Foi só quando vi a minha imagem refletida na transparência vitral da janela do meu quarto que percebi o desfigurado do meu rosto, e por mais translúcido que fosse aquele vidro eu não podia ver o que havia do lado de fora, porque a feiura monstruosa da minha face mostrava-se apagando todo o resto. Bem que podia haver do outro lado uma beleza incomparável, algo que fosse menos sufocante que o brilho oleoso e negro-avermelhado daqueles insetos, e menos brutal que esse meu rosto duro, emagrecido, agora visto no vidro cobrindo a transparência da janela do quarto, deixando tudo escuro, escuro.
Eu precisava fazer alguma coisa, tudo estava chegando naquele mesmo ponto em que chegara muitas vezes antes, tudo queria novamente repetir-se. E com a repetição eu não podia mais. Eu tinha de tomar uma atitude. O ácido bórico eu já havia espalhado pela casa, sem resultados positivos: barata é bicho esperto, sabe quando há veneno na cebola.
Quando naquela noite Ana perguntou “Você não vai jantar?” fingi não ter escutado e fui para o quarto. Com o tubo de veneno debaixo do travesseiro, resolvi deitar-me, e fui adormecendo pouco a pouco, não sem ouvir o barulho irritante que Ana fazia ao mastigar as baratas. Mas logo o sono veio e tudo foi calmando, calmando. 

* * *

Fui rápido e preciso. É claro que tive um susto quando acordei de madrugada e vi na cama do meu lado aquela barata enorme, de proporções gigantescas. Não era gorda como as outras e um pouco menos escura, e aí eu tive foi nojo e nem tanto medo mais. Apliquei o inseticida na cabeça e nas costas da maldita barata mas ela começou a se mexer e a querer fugir colocando as patas na cara acho que para o veneno não entrar nos olhos, e continuei a aplicar o veneno até que eu vi que ela não ia morrer mesmo e aí comecei a bater com a lata na sua cabeça assim com força até que ela caiu morrendo e começou a derramar um sangue muito muito escuro... um sangue que não era transparente.

sábado, 10 de outubro de 2009

Depois do homem

Seis horas da manhã. É inverno e o sol ainda não nasceu. Em sua toca, José acorda cansado, barriga vazia. A fome dura castigando o em de dentro, no mais fundo, corroendo o que quase já nem há para ser corroído: a própria carne. Fome doída fome. É preciso ir atrás de comida, catar papéis e latas pelas ruas da cidade, o lixo daqueles outros seres que não são Homens, mas que se parecem com Homens.


José é Homem até as entranhas da cabeça aos pés. Os outros, os que vivem na cidade, têm cinco dedos robustos em cada mão, dentes bons e uma mordida tão forte capaz de mastigar moendo tudo. Mas José tem poucos dedos gastos carcomidos, uns dois ou três em cada mão, e já não pode apertar quase nada. Os dentes, já os perdeu quase todos, e sua mordidinha é tão fraca que já não pode nem roer os duros ossos...

José sempre quisera ter dentes bons e dedos fortes, muitos muitos dedos fortes... Não por achar bonito e elegante não ser Humano, mas apenas pela necessidade da sobrevivência, para dar continuidade à sua espécie. Mas agora ele sabe que é impossível conseguir próteses; José está velho e doente, e não há mais tempo para nada.




II


O sol começa a despontar no horizonte e José sai de sua toca. A fome aperta ainda mais. Na parada de ônibus, outros Homens esperam com rostos doentes barbas crescidas e olhos cansados de uma noite mal dormida e fria. Esperam em silêncio, como zumbis. Todos esses poucos Humanos que ainda restam foram contaminados pelo vírus letal. A moléstia os enfraquece a passos lentos, e para eles não há defesa. Para os não-Humanos, entretanto, esse vírus não é nem um pouco prejudicial; pelo contrário: ao serem contaminados ganham ainda mais vigor (trazem o vírus encubado e se alimentam dele).





III


O ônibus chega e os Homens entram calmos calmos com movimentos maquinais. No primeiro banco está sentado um senhor gordo, de chapéu largo, camisa xadrez e botas muito lustrosas. Este senhor não é um Homem, mas se parece com os Homens, apenas por fora. Há vários outros de sua espécie, aglomerados em sua volta, protegendo-o de uma eventual situação de perigo. A entrada de José e dos outros Homens parece não agradar a este senhor, que os olha com cara feia e diz para os outros não-Humanos:

“Fiquem atentos, já chegaram essas coisas, essas criaturas nojentas!”

José está cansado, as pernas tremem, tremem. Ele olha para os bancos do ônibus, que, com exceção daquele em que o senhor gordo esparrama o seu pesado corpo, estão todos vagos.

“Que tal se eu me sentasse um pouco?... estou tão cansado...”, pensa José.

De quando em quando, o senhor gordo olha para os Homens com arrogância e faz: “humm!”. José reflete mais um pouco e, finalmente, senta-se num dos bancos, sentindo um alívio profundo nas pernas doloridas. Porém os outros Homens nem se arriscam, continuam de pé. O senhor gordo de chapéu largo, ao perceber que José está sentado, recebe aquilo como uma afronta:

“Hei! Mas o que é isso!? Que absurdo! O que é que você está pensando, coisa maldita!? Levante já este traseiro sujo do meu banco!”

José não compreende nada e fica atordoado.

“Mas, senhor, os bancos estão todos vagos, e eu estou tão cansado... Sou um homem velho e magro, e o senhor até que está bem gordo...”, responde José, humildemente, ao que o senhor logo rebate:

“Não me interessa, seu atrevido! Se eu comprei todos os lugares, então todos os lugares são meus, e não quero que nenhuma coisa inútil e insolente como você coloque o rabo imundo nos meus bancos!”

Nesse momento, o motorista, acostumado com essas situações corriqueiras, olha para trás sacudindo a cabeça e apertando os lábios, com desdém.




IV


José desce do ônibus no centro da cidade e vai caminhando pelas ruas, procurando alguma coisa para catar (o tão procurado lixo daqueles que não são Homens, mas que se parecem com Homens). Esses outros seres esbarram em José, mas nem o percebem. É que José não usa chapéu de abas largas, não possui botas lustrosas de couro duro, e o seu casaco está muito velho rasgado e quase já não esquenta Nada.



José segue pela calçada, a fome aumentando a fome, os poucos dedos impotentes com vontade de apertar, a mandíbula desdentada e fraca sentindo um desejo tremendo de morder morder mordeeeeerrr. Mas ele não pode. José sabe que tem de procurar algo bem macio e que possa ser engolido inteiro, de uma única vez. Saborear o alimento é coisa que José nunca conseguiu: como todos os outros Homens, já nasceu meio desdentado , e sua língua é tão dura e tão seca que ele já nem sente gosto nenhum de Nada Nada...NADA.



José sente o frio batendo no rosto emagrecido pela fome estalando na pele um açoite, mas continua calmo andando lento. Súbito, José sente uma dor doída dentro algo como um quebrar de ossos. Ele pára, leva a mão ao peito, engasgando com aquela dor tão forte tanto. José tenta gritar alguma coisa, mas a voz sai baixinho, muito baixo mesmo, um quase sussurro:



“Ajuda...Ajuda...”



Ninguém o ouve. Não há por perto nenhum Homem: todos que estão por ali são daquela outra espécie. E a rua um turbilhão, num caminhar contínuo de criaturas se esfregando umas nas outras. Numa esquina, dois sujeitos parados conversam alto, soltando gargalhadas.



“Ajuda...Ajuda...”



Ninguém. José tenta avançar um pouco mais, um pouco mais apenas. Aproximando-se dos dois sujeitos que conversam rindo alto, José implora:



“Ajuda...”



Mas eles continuam conversando, rindo cada vez mais alto. Há outras criaturas pelas ruas também, e quem olha para essas criaturas com o olhar desatento pode até dizer que são feitas de carne e osso, mas é pura ilusão: o interior de seus corpos é formado por tilintares de metais brilhantes e suas peles constituem-se de papéis coloridos camuflados, pintados com cores postiças de inúmeros números infinitos. Alguns limpam as calçadas, desinfetando tudo tudo e arrancando as plantinhas que nascem por entre as pedras com suas folhinhas verdes cheias de vida, outros esfregam obsessivamente os vidros das vitrines das suas lojas, deixando-os cada vez mais transparentes, quase invisíveis ao olho Humano.



José, sentindo no peito aquela dor terrível, tenta agarrar-se aos ombros de um dos rapazes que conversam rindo alto. Mas ele nem se importa. Sem olhar para baixo, empurra José com suas mãos de cinco dedos fortes, afastando-o como quem afasta algo inútil. José cai logo adiante, e como se nada tivesse acontecido, os dois rapazes continuam conversando rindo muito alto.



“Ajuda...Ajuda...”



José agoniza. Muitos passam por ele na calçada, tropeçam no seu corpo, machucam seus braços e pernas, esmagam os poucos dedos fracos corroídos que possui. E não param; seguem em frente, na eterna busca dos tilintares metálicos vitais, sorrindo com seus dentes rijos e pensando: ”Vejam só como eu posso morder bem forte! Tenho uma mandíbula de ferro!” O mesmo pensamento ecoa pelas outras mentes não-Humanas:







“...mandíbula



                              de



                                          ferro...



                                                                      ferro...



                                                                                                                    FERRO...”











E José, pisoteado, implora:

“Por favor...estou morrendo...”

Nada. Vozes estrondosas gigantescas abafam os sussurros de José com gargalhadas trovejantes. Ele vai perdendo os movimentos. A dor é tanta, mas tanta, que já não há onde o que doer em lugar nenhum. A visão começa a turvar-se e o seu corpo vai diminuindo diminuindo cada vez mais...mais...mais... Agora José é um único ponto minúsculo bem no meio do seu próprio peito entrando num buraco escuro, que vai sumindo, sumindo, até virar um Nada.

Os outros que não são Homens mas que se parecem com Homens continuam pelas ruas, caminhando, passando por José, tropeçando em seu corpo quase sem vida, espezinhando, esmagando, sufocando José.

Nesse instante, uma criatura passa pela calçada carregando uma pilha de copos. Esses copos estão cheios de um líquido dourado e viscoso. O líquido transborda mas os copos continuam Vazios, Vazios. De repente a criatura esbarra em José e derruba os tais copos, quebrando-os em mil pedaços. Então, esse ser que não é Humano grita:

“Que merda! Quem foi que colocou esse entulho na calçada!? É preciso tirar essa coisa daí, isso está atrapalhando!”

Mas José agora já nem sente nem sofre nem pensa: o pontinho minúsculo que já era um Nada passou do Nada e agora é só a morte. E ali mesmo José apodreceu secou desapareceu voltou ao pó nunca mais foi visto e agora tudo é loucura e passou dos limites muito mesmo tanto quanto nunca antes.



V


E assim pereceu José, o Homem. O pai do Homem e o pai do pai do Homem tiveram o mesmo destino, e logo os irmãos de José, os outros Homens, perecerão também, dando lugar a essas novas criaturas, tão mesquinhas quanto orgulhosas cruéis e arrogantes com mordeduras fortes e muitos dedos dedos dedos de um metálico aperto duro e frio.

A invasão

...y al mirar la doble callejuela multiforme por el vidrio de la ventana, me di cuenta que el otro, el hombre de dos caras, me veía también a mi.. (Alfonso de la Peña)




Sempre que fecho os olhos. Agora tenho medo até. Ainda se eu pudesse não sentir, não ver, e se houvesse maneira de eu acreditar que tudo não passa de sonho, fantasia apenas, loucura, mas. Ele é quem decide as coisas por aqui, é ele quem brinca comigo me olhando com aquele olhar cretino, aquele olhar apertado que me lembra um risinho de deboche. Ele tem o poder agora (e como gosta de ser poderoso!). E mesmo com os olhos abertos eu posso senti-lo, posso ouvir as bobagens que ele diz usando a minha boca e a minha língua, sorrindo com os meus dentes. E observo o quanto gesticula, jogando meus braços de um lado para o outro, como se eu fosse um boneco de pano. Eu posso ver e sentir tudo isso o tempo todo, mas aquele olhar de riso debochado que tanto me tortura e que me machuca só de pensar, e que me deixa assim querendo que eu não fosse tão pequeno e não chorasse por dentro tanto, aquele olhar é só quando fecho os olhos.



Tudo (desta vez, a única de que tenho plena consciência) começou por volta de quatorze semanas atrás. Lembro que foi numa tarde clara de um dia muito quente que comecei a perceber que ele me habitava. Não sei dizer há quanto tempo morava em mim, mas é possível que sempre tivesse vivido ali, escondido em meu pequeno corpo desde o nascimento. O que importa mesmo é que (agora) foi nessa tarde, exatamente nessa tarde quente, que ele começou a manifestar sua terrível arrogância. Numa tarde clara. É verdade que os últimos tempos têm-se mostrado um tanto turvos, mas quatorze semanas atrás ainda havia certa claridade. Porque foi numa tarde bastante clara.



Não falava comigo no começo; apenas respondia aos outros, por mim, coisas que eu não ousaria responder, respostas que por muitas vezes se mostravam contrárias ao meu próprio pensamento.



Estava sempre ali, e às vezes (como num espelho) eu podia vê-lo, sempre que eu fechasse os olhos. Como num espelho porque, embora ele usasse roupas um tanto quanto extravagantes e tivesse um corte de cabelo nada discreto, com pontas compridas alouradas e uma franja muito azul, num colorido que nunca me foi próprio, parecia-se comigo na aparência. E aquela franja azul me lembrava sempre o mar, porque quando eu ficava de olhos fechados olhando para ela eu via a imagem de uma onda muito azul, batendo nas pedras e voltando, e batendo, e voltando, e batendo de novo, calma e sempre a mesma água, sempre uma onda muito azul, porém como se fosse outra.



Parecia-se comigo por trás da máscara. Em verdade, ainda se parece. (tenho falado disso tudo no passado porque ele, agora, já não é mais ele, embora ainda esteja aqui).



Aos poucos fui tentando manter com ele uma espécie de diálogo, eu tentava comunicar-me, perguntava coisas (por que estava ali? o que queria? por que me fazia sofrer tanto? e por que eu sentia aquela vontade de chorar o dia inteiro até que meus olhos secassem, enquanto ele, debochado e arrogante, ria sempre?). Mas ignorava-me por completo. Só pensava em arrotar bobagens sem sentido, em distribuir aos outros suas opiniões estapafúrdias. E o que me dava mais nojo, a ponto de fazer-me vomitar às vezes, era o fato de ele usar a minha boca para falar aquelas asneiras todas, aquele lixo passava pela minha própria língua, deixando-a pegajosa e gosmenta de tanta imundície. E usava minha boca como se fosse mesmo sua, o que fazia com que eu parecesse, para os outros, diverso do que realmente era. Não sabiam que ele, aprisionado em mim, fazia-me de escravo, e que seu descaso não me dava chances de liberdade, e sequer podia eu entendê-lo.



De todos na casa, apenas o Narciso soube dele. Os outros só pensavam em dizer que eu estava culpado. Que eu era o responsável por toda aquela estranheza dentro de mim, por tudo de errado que ele fiz sem que eu quisesse, por todas as coisas que eu falou sem ter vontade. E a casa, embora estivesse cada vez mais cheia, continuava vazia para nós. E cada um (pai, mãe, irmão, tio, avô, e até mesmo a irmã que sempre parecera imune a qualquer doença) se escondia, se apertava no seu canto, e os quartos da casa continuavam sendo os lugares mais habitados. Não fosse essa distância talvez até soubessem dele, e pudessem me ajudar, e até fizessem com que ele não me doesse tanto assim.



Mas o Narciso, ah!, o Narciso sim é que sabia de tudo. Apenas ele, com aquela transparência de vidro que sempre carregou nos olhos, deixava entrever que conhecia a minha desgraça. Estava consciente, eu sabia, apesar de haver tentado dissimular, como sempre fazia com tudo. Um dissimulado, o Narciso. Mas aqueles grandes olhos transparentes me faziam sentir que ele havia testemunhado tudo: desde o momento em que eu fora invadido até o começo da dominação. E Narciso andava quieto, cabisbaixo (há tempos não me pedia um carinho), mas passava horas a observar-me, dizendo-me, com os olhos e com aquele meio sorriso felino, que sabia.



E no meio de um delírio tive uma visão que me encheu o peito de esperança: lá em casa, todos nós agora tínhamos cabeças de gato, felpudas, macias, e nossos olhos se enchiam de transparência e vida. E logo me veio a figura de Narciso, e pensei o quanto ele era carinhoso e nunca tinha medo de pedir e dar carinho aos outros, embora por vezes até pudesse arranhar ou morder alguém. E então tive aquela idéia que me encheu de alegria: meio gatos, meio homens, agora poderíamos ser um pouco mais dissimulados, e, fingindo sentir aquilo que sentimos e que tanto nos machuca, encostar-nos uns aos outros pedindo um afago, como fazem os gatos, como o Narciso sempre fez. Assim, poderíamos fingir que o amor que sentimos uns pelos outros não nos dói tanto assim, e poderíamos até dissimular que todo esse amor nunca existiu, e que nós, agora gatos, só queremos que as nossas mãos acariciem nosso pelo macio, só por um instante.



Tanta gente naquela casa e o gato era o único que sabia. A criatura dentro de mim crescendo, e aumentando mais ainda o sorriso debochado daquele olhar. Quanto mais ele me persegue, quanto mais ele me castiga com seus golpes sujos, mais eu me apego ao gato, como se ele pudesse me salvar. Mas o Narciso tem andado meio afastado, já não me observa tanto. E agora, no momento em que descubro que Narciso se afastou de mim por medo, tudo começa a desmoronar, porque conheço o Narciso como ninguém e sei que de mim ele jamais teria medo.



E habitando aquele corpo fui crescendo... Este sorriso debochado nos meus olhos o gato já deve ter notado, o mesmo sorriso que o outro também via dentro dele, sempre que fechasse os olhos.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Uma conversa proibida

"Mientras mi abuela miraba diariamente las fotos antiguas, tres o cuatro veces por día, yo empezaba a sentir algo muy raro, como una especie de curiosidad creciente. Ella las miraba y me contaba historias; cada foto tenía su propia historia. Me gustaban las historias y también las fotos antiguas. Después, con el tiempo y la lectura, conocí a Julio, y todo se me aclaró bien. Quizá por eso sea yo hoy un cuentista." (Autobiografía de Alfonso de la Peña, tomo II, cap. XVI, p. 235)



¬– Nunca pude entender muito bem as cores, são tão instáveis, transitórias... – murmurou o pequeno rato, mais para si mesmo do que para qualquer um dos utensílios domésticos que estivessem por ali, atirados pela pia. Mesmo assim, uma xícara velha, que há dias andava suja, esquecida, ainda com um resto de leite coalhado no fundo, contestou:

– As cores são assim mesmo, amigo, variam muito...

E o rato, com uma expressão dura e pensativa, como alheio ao comentário feito pela xícara, continuou.

– Eu podia jurar que ontem, quando estive aqui, a porta do armário era vermelha... e não cinza. Isso tem acontecido muitas vezes, essas mudanças de cores vivas para tons acinzentados.

– Era mesmo vermelha, a porta ¬– confirmou a xícara velha – Mas as coisas não são assim tão simples. A verdade é que as cores não tem culpa. São obrigadas a mudar de tom sempre que sua vivacidade assuste ou incomode alguém. Você sabe de quem eu falo quando digo alguém, não sabe?! Eles ficam cuidando tudo lá de fora, e existem políticas e até mesmo campanhas para que as cores aqui de dentro mudem sempre para tons pardacentos. Você mesmo, ontem, estava todo cheio de pintas roxas, e hoje, entretanto...

Atônito, e com o olhar já um pouco entristecido, o pobre ratinho indagou:

– Entretanto o quê!? Não me diga que minhas cores mudaram!!!

– Ãhn... é... mais ou menos. Quero dizer, você está em processo de transformação.

– Como assim? Ainda posso ver minhas manchas roxas, estão bem aqui! – disse o pequeno roedor, apontando para uma das marcas coloridas imaginárias.

– Sim, meu caro, isso é o que você vê. Isso também é trabalho deles; fazem você continuar acreditando que é colorido quando, no entanto, já está acinzentando. Eles ouvem tudo, sabem de tudo, e fazem o que podem para dominar a vida aqui dentro. A verdade é que temem uma rebelião, por isso é preferível, para eles, que pensemos que tudo está muito bem...

E o rato, cabisbaixo, com lágrimas brotando dos olhos, perguntou:

– Mas como você tem consciência de tudo isso? Como sabe de tanta coisa?

A xícara sorriu.

– Amigo, olhe para mim, sou apenas uma xícara esquecida e suja, ninguém lembra de mim. Fico o tempo todo aqui, observando. Percebo algumas coisas, mas... não posso fazer nada. Além disso, essa pressão que vem de fora para dentro me impossibilita qualquer movimento. Estou como morta, entende? Eles preferem assim, que uma xícara não seja nada além de uma xícara. Minha função é essa, ficar aqui parada com leite coalhado no fundo, até que alguém decida me usar.



Subitamente, ouvem-se passos e gargalhadas trovejantes no corredor. O diálogo pára. A xícara volta a ser xícara, o rato volta a ser rato. As paredes e o chão começam a tremer. Eles tentam arrombar as portas, furar os tijolos, os ossos, a carne. Precisam, de alguma maneira, colocar um freio na torrente do imaginário. Enfiando suas caras medonhas em todas as janelas ao mesmo tempo, gritam repetidas vezes: “a única fonte possível é a realidade!”.

E, grudados atrás das orelhas daquele espécime (o último ainda verdadeiramente vivo), tentam rasgar sua pele, serrar os seus ossos, virá-lo do avesso. Tudo isso porque precisam saber, ansiosamente, qual a razão de ter inventado aquela conversa, que sentido tinha aquele diálogo e qual seria sua relação com o mundo real.

sábado, 5 de setembro de 2009

O nome da dor


                                ... que é impossível ter da vida

                               calma e força.

                             Viver em dor

                            tentar ser forte a todo e cada amanhecer...

                          (Renato Russo)




31 de maio.


Ela já havia decidido que a cocaína seria o último refúgio para os dias de solidão, quando a escuridão da noite lhe penetrasse o corpo frágil de menina, trazendo o medo e o desespero. Andava cansada de sentir aquele gosto amargo na boca e toda aquela dormência que ela já nem sabia se era mesmo dormência, porque já havia até esquecido o que é não estar dormente. Seria bom poder sentir um pouco mais a língua, os dentes, os lábios, e não deixar que a saliva escorresse tanto pelos cantos da boca. Queria também poder falar sem ter aquele nó na garganta, e sem sentir o coração batendo tão violentamente, tão descompassado. Na verdade, queria sentir a vida como ela era antes, com a pureza calma e límpida, ainda intocada, intocável; queria esquecer a euforia, esquecer a tristeza, esquecer que o amargo pode ser tão doce, para que depois tudo pudesse acontecer de novo, aquele verão com o mesmo desejo tão intenso e a mesma meia saudade do que ainda não se foi e do que ainda nem se conheceu, para que a cocaína pudesse então voltar e trazer o mesmo colorido passageiro. E é aí que tudo novamente recomeça, esquecer relembrar esquecer relembrar esquecer... Por isso decidiu que seria só nos dias mais tristes (talvez quando a chuva caísse à tardinha), só nos dias em que a solidão fosse mais profunda.


Se Ana não pensasse assim, é possível que tudo tivesse acabado muito antes. É possível até que tudo tivesse acabado antes mesmo de conhecer o Marcos, e que o Marcos nunca tivesse perseguido as linhas brancas, e que não tivesse gostado tanto e que não tivesse encontrado assim, tão repentinamente, uma morte estúpida. Marcos não desenvolvera, como Ana, toda essa capacidade de esquecer e relembrar. Apenas não queria esquecer. E quando é assim o coração não agüenta, morre de cansaço. Marcos se foi e Ana continua aqui, e sempre que a vejo assim dormindo como agora está, penso que a vida podia ter sido outra, (mais... e mais...) se Ana não houvesse tido a infelicidade de me conhecer.


A tinta da caneta tem cheiro de tutti-frutti. Sei que Ana adora tutti-frutti. E cada vez que beijo sua boca e devoro sua língua eu sinto cheiro de tutti-frutti (apesar de misturado ao cheiro da cocaína). E sua saliva, que é tão doce e tão amarga ao mesmo tempo, e o seu cheiro (que me lembra o sexo e a cocaína), e toda sua pele dormente e tudo o que eu bebo em seu suor, tudo me fazer sentir ainda mais mulher. Porque é a língua dela o que me sustenta, é a saliva dela o que me dá força, e o cheiro de tutti-frutti que sinto em sua boca me faz pensar, só por um instante, que não somos tão impuras, que ainda conservamos ao menos um esboço, ao menos uma sombra, das crianças que um dia fomos.






Não sei se fumo ou se tento dormir. Minhas mão tremem um pouco e o peito palpita , pulsa o meu corpo inteiro. Fico inquieta sempre que preciso dizer alguma coisa e ainda não sei como. Tenho vontade de gritar. Fumo, tento dormir, não consigo. Tenho vontade de sair à rua. É tarde. Sinto-me seca, um buraco sem fundo. Devo estar louca; às vezes só consigo pensar no gosto do sexo de Ana, no sexo de Ana se esfregando em mim com violência. Uma pervertida, eu. E ela, uma criança. Apenas uma criança, uma doce criança.


Sinto uma dor que me espicaça o peito quando penso em Ana. E só eu mesma sei o quanto me machuca o fato de saber que tudo pode acabar assim, tão de repente e sem um pingo razão, de uma forma tão estúpida.


Tenho um espinho dentro de mim, que me rasga toda e me arrebenta as carnes cada vez que respiro. Ana sem poder falar, num corpo que já nem parece o dela; nunca tinha pensado nisso, nunca. Aquela voz calma e sempre doce, um quase sussurro às vezes, me dava a impressão de que duraria para toda a eternidade. Ana sem poder falar. Será que ouve? Sente alguma coisa? A cada dia que passa sinto ela mais distante, e tenho medo do dia seguinte, todas as manhãs são pedaços de angústia, essa mesma angústia que me rói o peito (uma angústia áspera, de pedra, que fere inteira, que me corta e me penetra, e que me faz achar o mais fundo de mim mesma, um fundo escuro, seco, seco...), essa angústia que me faz olhar no espelho e sentir essa vontade de ser outra, uma vontade de sair de mim, que é pra ver se a dor passa, e esquecer a culpa que sinto e a saudade que tenho e o cheiro da boca de Ana, um cheiro que ainda está entranhado na minha língua, no meu sexo que arde, na alma toda.


Cinco gramas, ontem. Sei que não devia, mas foi a saudade do cheiro de Ana o que me fez cheirar. Toquei meu corpo inteiro sentido o amargo doce adentrar-me garganta adentro... as veias a pulsarem, o coração retumbando.




 * * * * *




                                           ... a luz da lua a contemplar teu corpo

                                         sedento, louco de prazer

                                        e desejos ardentes...

                                      (Flávio Venturini)






17 de julho.


Ela já havia decidido manter-se afastada (o mais distante que pudesse) dessa terrível força que nos leva a todo o desperdício que há em querer buscar abrigo na destruição, a machucar-se sem motivos, em lugar de proteger-se no calor da vida, no doce acalanto de uma amizade sincera. Nessa mão amiga que muitas vezes não percebemos que está aqui tão perto, bem do nosso lado, apenas esperando que estendamos a nossa. E tudo porque mergulhamos num maldito fechar de olhos por querer, numa espécie de cegueira voluntária, e punitiva.


Foi por isso que ela desistiu. Por que acreditava estar sozinha, quando não estava. E o que mais me fere é ter a consciência de que eu tenho culpa de ela haver saído dessa calmaria. Tudo por luxúria. Só por luxúria. Porque sou uma depravada e não consigo manter-me por muito tempo longe da devassidão...




(...continua em breve)






Ensaio em forma de relato ou relato ensaístico


“Um dia sem rir é um dia perdido”, dizia Charles Chaplin. “E há que ser um riso verdadeiro”, completava. E de fato teve uma vida risonha. Não precisava rir com a boca; os olhos bastavam. Em suma, foi um riso em forma de gente. Se a afirmação de Chaplin faz sentido não sei ao certo. Compreendo a idéia, sinto por ela até uma espécie de simpatia, mas, para ser sincero, não estou nem um pouco convencido de que seja uma verdade absoluta. A propósito, a única afirmação que consigo conceber como “verdade absoluta” é a idéia de que “não existe nenhuma verdade absoluta”. E, neste ponto específico, creio que Einstein não discordaria de mim. E, se por acaso discordasse, cairia no mais puro e profundo paradoxo a respeito de sua própria teoria.


Entretanto, se assim fosse, ou seja, se eu acreditasse sinceramente nas palavras de Chaplin, e nelas encontrasse a mínima identificação, teria de admitir também o fato de que perdi (como quem perde um par de meias ou um guarda-chuva) nada menos do que dez anos de minha vida. Sim, teria de admiti-lo, porque, afinal, há mais ou menos dez anos eu não tenho sequer um esboço de riso ou sorriso, e, de maneira alguma considero estes anos perdidos; muito pelo contrário, foram os melhores e mais bem vividos anos que tive no decorrer de minha vida; os mais alegres, os mais felizes e harmoniosos.



Contudo, quero que fique bem claro que não duvido, absolutamente, das palavras de Chaplin. Acredito que ele ganhava, de fato, os seus dias através do riso, posto que, se não risse, os considerava perdidos. Ocorre apenas que esta não é a minha verdade.



Mas, se durante esses dez anos eu não ri, não é porque estivesse triste ou melancólico. De maneira alguma; a alegria esteve presente sim, pelo menos até o momento em que comecei a escrever nesta folha de papel. A falta de riso não teve relação alguma com tristeza, e, se isso interessar a quem porventura venha a ler este manuscrito (ainda que eu considere esta possibilidade um tanto remota), durante estes mesmos dez anos eu também não chorei. Nem riso, nem choro, e ponto.



Ademais, por aqui eu nunca me deparei com nada que me fizesse rir. Mas que isso não seja entendido às avessas: ter vivido por todos esses anos num lugar onde nunca encontrei coisa alguma que me desse motivo ao riso não me incomoda nem um pouco; as circunstâncias em que vivi, embora não risonhas, acabaram por trazer-me um indescritível bem-estar e um estado de espírito repleto de felicidade, por mais incongruente que isso tudo possa parecer.



Se queres saber, sou sim um ermitão. Isto já deve ter sido notado nas linhas anteriores, mas preferi escrevê-lo mesmo assim, apenas para esclarecer melhor e deixar tudo transparente.



O que acontece, no entanto (e é aqui que começa o meu relato), é que não sou um ermitão qualquer. Não sou um indivíduo anti-social que simplesmente decidiu isolar-se ou afastar-se da vida em sociedade. Tive motivos e razões muito peculiares para decidir deixar a cidade e vir morar aqui nesta ilha, completamente inabitada por outros seres humanos.



Não vou dizer que a decisão que tomei, naquela época, tenha sido fácil. Não; passei por momentos difíceis, dolorosos, por vezes quase insuportáveis. Mas não havia outro modo. Eu tinha uma idéia fixa, um projeto elaborado, algo que devia ser executado a qualquer custo. Enfim, eu sentia o dever, a obrigação de fazer o que fiz, depois de ter pensado tudo o que pensei.



Se Dostoievski fosse ainda vivo, certamente não me classificaria com um “homem de ação”; creio que veria em mim um típico “homem de pensamento”. E é provável que esteja aí o princípio de tudo, o motivo pelo qual estou narrando agora os fatos, dispondo-me, deliberadamente, a deixar registrados os resultados de minha experiência. Sim, porque pensar sempre me foi demasiado penoso, sofrido, como facas cortando as minhas carnes. E, seja algum maldito destino ou por pura herança genética (ou ainda por outro motivo qualquer), tive de carregar comigo, desde a mais tenra infância, o terrível hábito de pensar demais, excessivamente. Não sei, em verdade, se posso chamar isto de hábito. Talvez fosse melhor ter usado a palavra “fardo”. Mas deixemos como está, não vou alterar o que já está escrito. Além disso, para ser sincero, é bem possível que a palavra “hábito” venha a fazer sentido no decorrer dos fatos, podendo talvez cumprir um papel relevante em relação às minhas conclusões finais.



Mas, hábito ou fardo (por hora não nos interessa escolher qual é o termo mais adequado), o fato é que o pensamento, no meu caso sempre exagerado e fora de controle, só me fez sentir dor, remorso, vergonha, um cruel e incontrolável sentimento de impotência, e uma série de outras sensações ruins e indesejáveis.



Um homem de pensamento, sim. Um pobre e desgraçado homem de pensamento. Assim fui, como o “homem do subsolo”, de Dostoievski. Exatamente como ele. Sempre que encontrasse um muro em minha frente, como obstáculo, eu nunca escolhia o caminho mais fácil. Poderia, até, caminhar um pouco mais, e dar a volta pelo muro, passando livremente, ou quem sabe até mesmo saltar por sobre a barreira. Eu podia, porém jamais consegui. Tinha sempre de jogar-me de cabeça contra o muro, feito um touro enlouquecido, com raiva, força e violência. O que ocorria é que nunca me bastava apenas ultrapassar uma barreira; eu sentia a necessidade (quase sempre voraz e irrefreável) de compreender o porquê de ter-me deparado com qualquer obstáculo que fosse. Em síntese, eu precisava saber por qual razão ele havia sido posto justo em meu caminho.



Bom, eu era assim. Por trinta anos eu vivi e aceitei a minha natureza de pensador, de um ser racional que precisava buscar sentido e explicação para tudo. Cada movimento, cada gesto, cada objeto que meus sentidos pudessem perceber geravam, automaticamente, analogias, horas e horas de racionalizações, idéias que originavam mais e mais idéias, como numa reação em cadeia. E no final de tudo, o que sempre me restava se resume em feridas profundas, angústia, dor e desespero. Mas nem tudo se resume em lágrimas; o tempo não falha e nada acontece por acaso. Foi justamente num desses momentos em que eu me encontrava atordoado por uma torrente de pensamentos, em busca do sentido da vida e da existência humana, que acendeu-se uma luz. Uma idéia, a princípio. Na verdade, a última e derradeira grande idéia que tive, e que me transformou por completo. Nasceu ali, naquele momento, um novo ser.



Eu era, eu fui este homem que acabei de descrever. Entretanto, por mais inusitado que pareça, voltei a ser o antigo homem (aquele dos pensamentos exagerados) no exato instante em que decidi escrever estas linhas. Isto se compreenderá logo; cada coisa a seu tempo. Falemos agora da minha excêntrica (porém singular) idéia.



Veio como uma conjetura, uma simples suposição. E surgiu tão rápida como relâmpago. Ocorre que os relâmpagos são clarões. Apenas clarões. Um segundo depois a escuridão reaparece. E o que eu precisava (e acabei por conseguir) era de mais e mais luz. Uma luz ininterrupta.



Lapidei e poli a minha inesperada hipótese, reuni os indícios e argumentos necessários, e fiz da conjetura uma teoria, o que exigiria, de minha parte, uma demonstração, um busca por evidências empíricas que comprovassem o que, previamente, havia sido teorizado.



Tal teoria consistia, em síntese, na crença de que o homem, desde as mais antigas civilizações, havia deturpado e corrompido aquilo que o próprio homem afirmava (e segue afirmando) diferencia-lo dos outros animais: a razão.



O meu desafio, então, era convencer-me, na prática, de que a razão humana fora distorcida pelo homem, a tal ponto que acabou ocorrendo uma total e completa inversão de valores, de maneira que as características mais intrínsecas da razão passaram a ser entendidas às avessas.



De acordo com a teoria (cujos argumentos logo serão relacionados), a capacidade de racionalizar que o homem desenvolveu com o passar do tempo não consiste em uma virtude, e sim (por mais paradoxal que, a princípio, isso possa aparentar) no principal defeito de caráter que homem já pôde manifestar em toda a história da humanidade.



Isto pode explicar-se pelo simples motivo de que é deste defeito que nascem e se proliferam todos os outros. Seria, mais ou menos, no que se refere às deformidades morais do ser humano, como se a razão fosse o general de um grande exército, que não apenas recruta e comanda os seus subordinados, mas que também é responsável por cada uma de suas ações. Assim, concebendo a razão da maneira como vem sendo exposta em minha teoria, poder-se-ia facilmente considera-la o mais poderoso defeito que possui o ser humano, e talvez, (ainda que isso possa conter um quê de profecia) o único que tenha a capacidade e a possibilidade de levar-nos à autodestruição.









(...continua em breve)



sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Um palhaço na vitrini

"Los hombres me habían dicho, con fuego en los ojos, que yo tendría que pasar por una puerta, donde los dos guardias estarían esperándome[...] Seguí por un camino estrecho, que a veces se dividía en dos, hasta el día en que logré avistar la dicha puerta ¡Pero estaba cerrada![...] Y los guardias, con soberbia, me dijeron que habían recibido órdenes para no abrirla." (Francisco Kiftenn)





Por três vezes eu estive parado junto à porta, sem coragem para entrar. Numa delas, lembro que até levei a mão à maçaneta, girei meia volta, quase abrindo, mas não pude - alguma coisa me obrigava a desistir, a retroceder. Três vezes eu tentara: por três vezes desistira.


E durante muitos e muitos dias (acredito que exatamente por duas semanas), antes de haver tentado entrar, eu estivera observando, através daquela vitrine de vidro espesso e transparente, com olhar atento, quase obsessivo, a figura desengonçada do palhaço de pano que, entre os outros brinquedos, destacava-se, não apenas por sua cara risonha, amarelada e profundamente expressiva, mas pela transparência dos olhos, uns olhos que traziam toda a força que há na beleza de mostrar-se o outro lado, uns olhos em que havia a translucidez do vidro.






Os olhos que passam lá fora, e que às vezes param e observam, têm agora outro sentido, um sentido que só se pode ver daqui. Não sinto como se estivesse apenas aqui dentro, é claro; sei que também ando pelo lado de fora, que meus olhos e minhas pernas também passam, e que ainda também observo.






Mas por muito tempo estive ali, querendo entrar, querendo saber que mistério havia naquela cara pintada, que tristeza tinha ele por debaixo do sorriso. Embora o colorido da roupa e da maquiagem correspondesse a um típico palhaço de circo, alguma coisa havia nele de incomum, que apenas eu podia perceber, pelo muito tempo que fiquei observando. O lado esquerdo do rosto, vez por outra, parecia torcer-se, e o vermelho da boca tornava-se fosco, perdia toda a vida. E pelo translúcido daqueles olhos eu via algo se mexendo dentro, fundo, fundo, e o segredo detrás dos olhos pedia uma aproximação maior, que eu estava disposto agora a enfrentar. Eu queria entrar, e a porta a dizer-me não.


As portas nem sempre são o melhor caminho. E, naquele dia, não sei se por um aumento incontrolável do desejo de tê-lo em minhas mãos (e ver de perto o quanto aqueles olhos eram transparentes) ou por medo de perdê-lo, de perder aquele mistério todo sem saber, decidi que ia entrar. Eu sabia que podia entrar, ainda que a porta estivesse fechada para mim: já havia sentido antes, numa das vezes em que pude ver o algo que se mexia em seus olhos.


As portas nem sempre são o melhor caminho. Por muitas horas (parece-me que das oito da manhã às dez da noite) eu fiquei parado em frente à vitrine, com os olhos grudados na cara verde-amarelada do palhaço de pano. Nesse meio tempo, pude compreender muita coisa. Percebi que o vermelho do nariz e da boca não combinava com nenhuma das outras cores, parecia alheio, artificial. Pude entender também que ele sentia. Inanimado, tinha vida. Mostrava-se vivo. E ele queria que eu olhasse. Queria porque, sempre que eu me afastasse um pouco, a vitalidade transparente dos seus olhos me acompanhava triste, como se me pedindo para voltar. E eu voltava, aproximava-me do vidro, tentava entendê-lo (por vezes tive a impressão de que ele queria dizer-me algo). Como, com aquelas tantas cores tão alegres, ele podia expressar melancolia?!


Eu sabia que podia entrar. Já havia quase entrado algumas vezes, mas contive-me: eu devia esperar a hora certa, o momento exato, (o que não demorou muito para acontecer); logo senti que o caminho se abria, que as possibilidades aumentavam, que o outro lado esperava-me ansiosamente, e os olhos do palhaço cresciam e se abriam e me deixavam ver tão fundo dentro dele que quando dei por mim o outro lado não parecia mais tão outro assim, era como se fosse o mesmo, ainda que o colorido de dentro contrastasse com os tons de cinza do lado fora.






E o efeito não foi assim tão mágico, pode-se dizer que foi até natural, comum. De repente dentro com alívio. Mas é claro que essa naturalidade só foi e só é possível porque estou agora dos dois lados. Estou aqui dentro, estou aqui fora. O vidro continua ali, mas é como se não estivesse, porque a transparência agora é dupla, de dentro para fora, de fora para dentro. E o colorido de dentro, misturado com o pardacento do lado de fora, resulta em cores enigmáticas, extraordinárias, cores impensáveis para quem está apenas fora, ou apenas dentro, cores que são visíveis somente para o olhar que se cruza de frente consigo mesmo.


Talvez o que ficou do lado de fora ainda esteja doente, ainda pense em suicídio. Porque a tristeza com que me olho é medonha, angustiante. Ele sabe (e eu sei) que o palhaço aqui dentro é uma parte nossa, uma parte que nunca imaginamos ver assim, frente a frente.