Duas baratas vivas em
cada prato: mesa posta. Duas baratas vivas e gordas em cada prato e eu parado
junto à mesa sem coragem de sentar. E Ana sorria levando à boca uma metade de
barata reluzente, ainda viva. “As baratas não morrem nunca, mesmo quando perdem
a cabeça continuam vivas”, pensei. Duas baratas em cada prato, agora uma e
meia. Duas baratas só bastavam. Mas. Os pratos contaminados e a boca de Ana
mastigando aquele inseto é que me deixavam aterrorizado. Só as baratas já
bastavam. E se eu caminhasse pelas ruas, baratas. E se eu chegasse em casa,
baratas. E se eu dormisse um pouco, baratas. Sempre baratas. E agora Ana
insistindo tanto em comer baratas na minha frente, e como se fosse pouco ainda
enche meu prato com duas baratas negras avermelhadas gordas gordurosas.
- Whonjnohw. Carlos Edil Whonjnohw.
Como se pronuncia esse sobrenome? É tão...tão...diferente.
- Tenho medo - eu disse.
- Como?
- Tenho um medo terrível de baratas. Está
ficando insuportável. E agora lá em casa estão comendo baratas, a Ana está
comendo baratas na minha frente só pra me provocar e os pratos estão ficando
cada vez mais cheios de baratas gordas com asas enormes...
Fui direto ao ponto.
Ele não precisava saber como se diz o meu nome. Nem eu mesmo sei. Só sei que
tenho medo. Tenho medo de alguma coisa, acho que de baratas principalmente. Foi
por isso que eu fui até lá e comecei a falar tudinho pra ele porque achei que
ele sabia o que fazer. Apenas por isso.
- Desde quando isso tem acontecido? - ele perguntou, não sei se
achando que eu era louco mas com cara de quem achava que eu era louco.
- Agora também nos copos d’água. Tem barata
nos copos e eu não posso mais beber água. Tenho sede às vezes e não posso
beber! A Ana bebe, não se importa, não tem escrúpulos.
Que importava desde
quando!? Importava mesmo é que as baratas já estavam nos pratos e nos copos e
na mesa e na boca de Ana.
- Quem é Ana? Por que você diz que ela tem
comido insetos?
Senti que ele
duvidava.
- Olha, estou procurando ajuda, não agüento
mais. Vê se acredita em mim. Tem baratas lá em casa por todos os cantos, até na
privada, debaixo do colchão, e a Ana é a porra da minha mulher que agora deu
pra comer barata!!! É isso mesmo, come baratas e coloca baratas no meu prato
também que é pra eu comer junto com ela, mas eu não como não que eu não sou
doido que nem você tá pensando.
E foi uma vez só.
Nunca mais voltei lá. Devia ter voltado, mas não. É culpa minha mesmo, eu sei,
ele só perguntava tanto porque isso é o trabalho dele, mas eu não queria que
perguntasse tanto, queria mesmo era falar das baratas e dizer o quanto elas me
fazem chorar e que agora nem chorar eu posso mais porque a Ana vem com uma
barata na mão dizendo: “Come! É bom, cê vai ver como é bom.”
Às vezes pareciam ir
embora, mas voltavam sempre. Ana também voltava sempre, sempre com baratas, com
as malditas baratas. Whonjnohw. Gostava de me chamar assim, por esse sobrenome
que ninguém sabe dizer. E eu via o deboche naquela sua voz: “Whonjnohw, Ana
está de volta!”. E voltava e trazia de volta também as baratas e o meu medo
também voltava sempre com elas.
Um dia sentou na
beirada da cama bebendo um copo d’água, e eu vi que no fundo do copo tinha uma,
bem gorda e mexendo as patas. Então eu gritei quase chorando “Ana, tem uma...
uma bar...”, mas ela não me ouviu e foi bebendo tudo e engolindo tudo aquele
bicho entrando passando pelo meio dos seus dentes enquanto eu tremia, soluçava,
aterrorizado.
E quando a Ana
caminhava pela casa sempre tinha uma fila de baratas caminhando atrás dela. E o
estranho de tudo isso agora já não eram as baratas (que o medo eu sempre tive),
o bicharedo que eu via pelos cantos, formando grandes manchas negras debaixo
dos travesseiros, passeando por cima das escovas de dente; a existência
daquelas criaturas que se moviam ansiosamente por todos os lados tornara-se
comum. O próprio desconforto vivido por tantos anos de noites insones suores
taquicardíacos ofegantes já não era o mesmo; desadoecia um pouco. Mas dava
lugar a essa outra estranheza: a Ana quando tirava a roupa os bichos saltavam
que fazia barulho. A Ana quando se deitava ficavam os bichos correndo por cima
daquele corpo, um corpo que já até cheirava a baratas. E as baratas que antes
adoravam cantos, que escondiam-se debaixo das coisas procurando escuros, as
baratas que de madrugada insistiam em fazer barulho até que eu acordasse
apavorado, todas elas reuniam-se em posições estratégicas, sempre junto de Ana,
e Ana com ovos de barata debaixo das unhas continuava pondo a mesa, bebendo a
água, tirando a roupa. Ana nascia baratas a cada dia e eu não suportava mais o
carcomido que aquela angústia me causava ao peito.
Foi só quando vi a
minha imagem refletida na transparência vitral da janela do meu quarto que
percebi o desfigurado do meu rosto, e por mais translúcido que fosse aquele
vidro eu não podia ver o que havia do lado de fora, porque a feiura monstruosa
da minha face mostrava-se apagando todo o resto. Bem que podia haver do outro
lado uma beleza incomparável, algo que fosse menos sufocante que o brilho
oleoso e negro-avermelhado daqueles insetos, e menos brutal que esse meu rosto
duro, emagrecido, agora visto no vidro cobrindo a transparência da janela do
quarto, deixando tudo escuro, escuro.
Eu precisava fazer
alguma coisa, tudo estava chegando naquele mesmo ponto em que chegara muitas
vezes antes, tudo queria novamente repetir-se. E com a repetição eu não podia
mais. Eu tinha de tomar uma atitude. O ácido bórico eu já havia espalhado pela
casa, sem resultados positivos: barata é bicho esperto, sabe quando há veneno
na cebola.
Quando naquela noite
Ana perguntou “Você não vai jantar?” fingi não ter escutado e fui para o
quarto. Com o tubo de veneno debaixo do travesseiro, resolvi deitar-me, e fui
adormecendo pouco a pouco, não sem ouvir o barulho irritante que Ana fazia ao
mastigar as baratas. Mas logo o sono veio e tudo foi calmando, calmando.
* * *
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