sábado, 5 de setembro de 2009

O nome da dor


                                ... que é impossível ter da vida

                               calma e força.

                             Viver em dor

                            tentar ser forte a todo e cada amanhecer...

                          (Renato Russo)




31 de maio.


Ela já havia decidido que a cocaína seria o último refúgio para os dias de solidão, quando a escuridão da noite lhe penetrasse o corpo frágil de menina, trazendo o medo e o desespero. Andava cansada de sentir aquele gosto amargo na boca e toda aquela dormência que ela já nem sabia se era mesmo dormência, porque já havia até esquecido o que é não estar dormente. Seria bom poder sentir um pouco mais a língua, os dentes, os lábios, e não deixar que a saliva escorresse tanto pelos cantos da boca. Queria também poder falar sem ter aquele nó na garganta, e sem sentir o coração batendo tão violentamente, tão descompassado. Na verdade, queria sentir a vida como ela era antes, com a pureza calma e límpida, ainda intocada, intocável; queria esquecer a euforia, esquecer a tristeza, esquecer que o amargo pode ser tão doce, para que depois tudo pudesse acontecer de novo, aquele verão com o mesmo desejo tão intenso e a mesma meia saudade do que ainda não se foi e do que ainda nem se conheceu, para que a cocaína pudesse então voltar e trazer o mesmo colorido passageiro. E é aí que tudo novamente recomeça, esquecer relembrar esquecer relembrar esquecer... Por isso decidiu que seria só nos dias mais tristes (talvez quando a chuva caísse à tardinha), só nos dias em que a solidão fosse mais profunda.


Se Ana não pensasse assim, é possível que tudo tivesse acabado muito antes. É possível até que tudo tivesse acabado antes mesmo de conhecer o Marcos, e que o Marcos nunca tivesse perseguido as linhas brancas, e que não tivesse gostado tanto e que não tivesse encontrado assim, tão repentinamente, uma morte estúpida. Marcos não desenvolvera, como Ana, toda essa capacidade de esquecer e relembrar. Apenas não queria esquecer. E quando é assim o coração não agüenta, morre de cansaço. Marcos se foi e Ana continua aqui, e sempre que a vejo assim dormindo como agora está, penso que a vida podia ter sido outra, (mais... e mais...) se Ana não houvesse tido a infelicidade de me conhecer.


A tinta da caneta tem cheiro de tutti-frutti. Sei que Ana adora tutti-frutti. E cada vez que beijo sua boca e devoro sua língua eu sinto cheiro de tutti-frutti (apesar de misturado ao cheiro da cocaína). E sua saliva, que é tão doce e tão amarga ao mesmo tempo, e o seu cheiro (que me lembra o sexo e a cocaína), e toda sua pele dormente e tudo o que eu bebo em seu suor, tudo me fazer sentir ainda mais mulher. Porque é a língua dela o que me sustenta, é a saliva dela o que me dá força, e o cheiro de tutti-frutti que sinto em sua boca me faz pensar, só por um instante, que não somos tão impuras, que ainda conservamos ao menos um esboço, ao menos uma sombra, das crianças que um dia fomos.






Não sei se fumo ou se tento dormir. Minhas mão tremem um pouco e o peito palpita , pulsa o meu corpo inteiro. Fico inquieta sempre que preciso dizer alguma coisa e ainda não sei como. Tenho vontade de gritar. Fumo, tento dormir, não consigo. Tenho vontade de sair à rua. É tarde. Sinto-me seca, um buraco sem fundo. Devo estar louca; às vezes só consigo pensar no gosto do sexo de Ana, no sexo de Ana se esfregando em mim com violência. Uma pervertida, eu. E ela, uma criança. Apenas uma criança, uma doce criança.


Sinto uma dor que me espicaça o peito quando penso em Ana. E só eu mesma sei o quanto me machuca o fato de saber que tudo pode acabar assim, tão de repente e sem um pingo razão, de uma forma tão estúpida.


Tenho um espinho dentro de mim, que me rasga toda e me arrebenta as carnes cada vez que respiro. Ana sem poder falar, num corpo que já nem parece o dela; nunca tinha pensado nisso, nunca. Aquela voz calma e sempre doce, um quase sussurro às vezes, me dava a impressão de que duraria para toda a eternidade. Ana sem poder falar. Será que ouve? Sente alguma coisa? A cada dia que passa sinto ela mais distante, e tenho medo do dia seguinte, todas as manhãs são pedaços de angústia, essa mesma angústia que me rói o peito (uma angústia áspera, de pedra, que fere inteira, que me corta e me penetra, e que me faz achar o mais fundo de mim mesma, um fundo escuro, seco, seco...), essa angústia que me faz olhar no espelho e sentir essa vontade de ser outra, uma vontade de sair de mim, que é pra ver se a dor passa, e esquecer a culpa que sinto e a saudade que tenho e o cheiro da boca de Ana, um cheiro que ainda está entranhado na minha língua, no meu sexo que arde, na alma toda.


Cinco gramas, ontem. Sei que não devia, mas foi a saudade do cheiro de Ana o que me fez cheirar. Toquei meu corpo inteiro sentido o amargo doce adentrar-me garganta adentro... as veias a pulsarem, o coração retumbando.




 * * * * *




                                           ... a luz da lua a contemplar teu corpo

                                         sedento, louco de prazer

                                        e desejos ardentes...

                                      (Flávio Venturini)






17 de julho.


Ela já havia decidido manter-se afastada (o mais distante que pudesse) dessa terrível força que nos leva a todo o desperdício que há em querer buscar abrigo na destruição, a machucar-se sem motivos, em lugar de proteger-se no calor da vida, no doce acalanto de uma amizade sincera. Nessa mão amiga que muitas vezes não percebemos que está aqui tão perto, bem do nosso lado, apenas esperando que estendamos a nossa. E tudo porque mergulhamos num maldito fechar de olhos por querer, numa espécie de cegueira voluntária, e punitiva.


Foi por isso que ela desistiu. Por que acreditava estar sozinha, quando não estava. E o que mais me fere é ter a consciência de que eu tenho culpa de ela haver saído dessa calmaria. Tudo por luxúria. Só por luxúria. Porque sou uma depravada e não consigo manter-me por muito tempo longe da devassidão...




(...continua em breve)






Ensaio em forma de relato ou relato ensaístico


“Um dia sem rir é um dia perdido”, dizia Charles Chaplin. “E há que ser um riso verdadeiro”, completava. E de fato teve uma vida risonha. Não precisava rir com a boca; os olhos bastavam. Em suma, foi um riso em forma de gente. Se a afirmação de Chaplin faz sentido não sei ao certo. Compreendo a idéia, sinto por ela até uma espécie de simpatia, mas, para ser sincero, não estou nem um pouco convencido de que seja uma verdade absoluta. A propósito, a única afirmação que consigo conceber como “verdade absoluta” é a idéia de que “não existe nenhuma verdade absoluta”. E, neste ponto específico, creio que Einstein não discordaria de mim. E, se por acaso discordasse, cairia no mais puro e profundo paradoxo a respeito de sua própria teoria.


Entretanto, se assim fosse, ou seja, se eu acreditasse sinceramente nas palavras de Chaplin, e nelas encontrasse a mínima identificação, teria de admitir também o fato de que perdi (como quem perde um par de meias ou um guarda-chuva) nada menos do que dez anos de minha vida. Sim, teria de admiti-lo, porque, afinal, há mais ou menos dez anos eu não tenho sequer um esboço de riso ou sorriso, e, de maneira alguma considero estes anos perdidos; muito pelo contrário, foram os melhores e mais bem vividos anos que tive no decorrer de minha vida; os mais alegres, os mais felizes e harmoniosos.



Contudo, quero que fique bem claro que não duvido, absolutamente, das palavras de Chaplin. Acredito que ele ganhava, de fato, os seus dias através do riso, posto que, se não risse, os considerava perdidos. Ocorre apenas que esta não é a minha verdade.



Mas, se durante esses dez anos eu não ri, não é porque estivesse triste ou melancólico. De maneira alguma; a alegria esteve presente sim, pelo menos até o momento em que comecei a escrever nesta folha de papel. A falta de riso não teve relação alguma com tristeza, e, se isso interessar a quem porventura venha a ler este manuscrito (ainda que eu considere esta possibilidade um tanto remota), durante estes mesmos dez anos eu também não chorei. Nem riso, nem choro, e ponto.



Ademais, por aqui eu nunca me deparei com nada que me fizesse rir. Mas que isso não seja entendido às avessas: ter vivido por todos esses anos num lugar onde nunca encontrei coisa alguma que me desse motivo ao riso não me incomoda nem um pouco; as circunstâncias em que vivi, embora não risonhas, acabaram por trazer-me um indescritível bem-estar e um estado de espírito repleto de felicidade, por mais incongruente que isso tudo possa parecer.



Se queres saber, sou sim um ermitão. Isto já deve ter sido notado nas linhas anteriores, mas preferi escrevê-lo mesmo assim, apenas para esclarecer melhor e deixar tudo transparente.



O que acontece, no entanto (e é aqui que começa o meu relato), é que não sou um ermitão qualquer. Não sou um indivíduo anti-social que simplesmente decidiu isolar-se ou afastar-se da vida em sociedade. Tive motivos e razões muito peculiares para decidir deixar a cidade e vir morar aqui nesta ilha, completamente inabitada por outros seres humanos.



Não vou dizer que a decisão que tomei, naquela época, tenha sido fácil. Não; passei por momentos difíceis, dolorosos, por vezes quase insuportáveis. Mas não havia outro modo. Eu tinha uma idéia fixa, um projeto elaborado, algo que devia ser executado a qualquer custo. Enfim, eu sentia o dever, a obrigação de fazer o que fiz, depois de ter pensado tudo o que pensei.



Se Dostoievski fosse ainda vivo, certamente não me classificaria com um “homem de ação”; creio que veria em mim um típico “homem de pensamento”. E é provável que esteja aí o princípio de tudo, o motivo pelo qual estou narrando agora os fatos, dispondo-me, deliberadamente, a deixar registrados os resultados de minha experiência. Sim, porque pensar sempre me foi demasiado penoso, sofrido, como facas cortando as minhas carnes. E, seja algum maldito destino ou por pura herança genética (ou ainda por outro motivo qualquer), tive de carregar comigo, desde a mais tenra infância, o terrível hábito de pensar demais, excessivamente. Não sei, em verdade, se posso chamar isto de hábito. Talvez fosse melhor ter usado a palavra “fardo”. Mas deixemos como está, não vou alterar o que já está escrito. Além disso, para ser sincero, é bem possível que a palavra “hábito” venha a fazer sentido no decorrer dos fatos, podendo talvez cumprir um papel relevante em relação às minhas conclusões finais.



Mas, hábito ou fardo (por hora não nos interessa escolher qual é o termo mais adequado), o fato é que o pensamento, no meu caso sempre exagerado e fora de controle, só me fez sentir dor, remorso, vergonha, um cruel e incontrolável sentimento de impotência, e uma série de outras sensações ruins e indesejáveis.



Um homem de pensamento, sim. Um pobre e desgraçado homem de pensamento. Assim fui, como o “homem do subsolo”, de Dostoievski. Exatamente como ele. Sempre que encontrasse um muro em minha frente, como obstáculo, eu nunca escolhia o caminho mais fácil. Poderia, até, caminhar um pouco mais, e dar a volta pelo muro, passando livremente, ou quem sabe até mesmo saltar por sobre a barreira. Eu podia, porém jamais consegui. Tinha sempre de jogar-me de cabeça contra o muro, feito um touro enlouquecido, com raiva, força e violência. O que ocorria é que nunca me bastava apenas ultrapassar uma barreira; eu sentia a necessidade (quase sempre voraz e irrefreável) de compreender o porquê de ter-me deparado com qualquer obstáculo que fosse. Em síntese, eu precisava saber por qual razão ele havia sido posto justo em meu caminho.



Bom, eu era assim. Por trinta anos eu vivi e aceitei a minha natureza de pensador, de um ser racional que precisava buscar sentido e explicação para tudo. Cada movimento, cada gesto, cada objeto que meus sentidos pudessem perceber geravam, automaticamente, analogias, horas e horas de racionalizações, idéias que originavam mais e mais idéias, como numa reação em cadeia. E no final de tudo, o que sempre me restava se resume em feridas profundas, angústia, dor e desespero. Mas nem tudo se resume em lágrimas; o tempo não falha e nada acontece por acaso. Foi justamente num desses momentos em que eu me encontrava atordoado por uma torrente de pensamentos, em busca do sentido da vida e da existência humana, que acendeu-se uma luz. Uma idéia, a princípio. Na verdade, a última e derradeira grande idéia que tive, e que me transformou por completo. Nasceu ali, naquele momento, um novo ser.



Eu era, eu fui este homem que acabei de descrever. Entretanto, por mais inusitado que pareça, voltei a ser o antigo homem (aquele dos pensamentos exagerados) no exato instante em que decidi escrever estas linhas. Isto se compreenderá logo; cada coisa a seu tempo. Falemos agora da minha excêntrica (porém singular) idéia.



Veio como uma conjetura, uma simples suposição. E surgiu tão rápida como relâmpago. Ocorre que os relâmpagos são clarões. Apenas clarões. Um segundo depois a escuridão reaparece. E o que eu precisava (e acabei por conseguir) era de mais e mais luz. Uma luz ininterrupta.



Lapidei e poli a minha inesperada hipótese, reuni os indícios e argumentos necessários, e fiz da conjetura uma teoria, o que exigiria, de minha parte, uma demonstração, um busca por evidências empíricas que comprovassem o que, previamente, havia sido teorizado.



Tal teoria consistia, em síntese, na crença de que o homem, desde as mais antigas civilizações, havia deturpado e corrompido aquilo que o próprio homem afirmava (e segue afirmando) diferencia-lo dos outros animais: a razão.



O meu desafio, então, era convencer-me, na prática, de que a razão humana fora distorcida pelo homem, a tal ponto que acabou ocorrendo uma total e completa inversão de valores, de maneira que as características mais intrínsecas da razão passaram a ser entendidas às avessas.



De acordo com a teoria (cujos argumentos logo serão relacionados), a capacidade de racionalizar que o homem desenvolveu com o passar do tempo não consiste em uma virtude, e sim (por mais paradoxal que, a princípio, isso possa aparentar) no principal defeito de caráter que homem já pôde manifestar em toda a história da humanidade.



Isto pode explicar-se pelo simples motivo de que é deste defeito que nascem e se proliferam todos os outros. Seria, mais ou menos, no que se refere às deformidades morais do ser humano, como se a razão fosse o general de um grande exército, que não apenas recruta e comanda os seus subordinados, mas que também é responsável por cada uma de suas ações. Assim, concebendo a razão da maneira como vem sendo exposta em minha teoria, poder-se-ia facilmente considera-la o mais poderoso defeito que possui o ser humano, e talvez, (ainda que isso possa conter um quê de profecia) o único que tenha a capacidade e a possibilidade de levar-nos à autodestruição.









(...continua em breve)



sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Um palhaço na vitrini

"Los hombres me habían dicho, con fuego en los ojos, que yo tendría que pasar por una puerta, donde los dos guardias estarían esperándome[...] Seguí por un camino estrecho, que a veces se dividía en dos, hasta el día en que logré avistar la dicha puerta ¡Pero estaba cerrada![...] Y los guardias, con soberbia, me dijeron que habían recibido órdenes para no abrirla." (Francisco Kiftenn)





Por três vezes eu estive parado junto à porta, sem coragem para entrar. Numa delas, lembro que até levei a mão à maçaneta, girei meia volta, quase abrindo, mas não pude - alguma coisa me obrigava a desistir, a retroceder. Três vezes eu tentara: por três vezes desistira.


E durante muitos e muitos dias (acredito que exatamente por duas semanas), antes de haver tentado entrar, eu estivera observando, através daquela vitrine de vidro espesso e transparente, com olhar atento, quase obsessivo, a figura desengonçada do palhaço de pano que, entre os outros brinquedos, destacava-se, não apenas por sua cara risonha, amarelada e profundamente expressiva, mas pela transparência dos olhos, uns olhos que traziam toda a força que há na beleza de mostrar-se o outro lado, uns olhos em que havia a translucidez do vidro.






Os olhos que passam lá fora, e que às vezes param e observam, têm agora outro sentido, um sentido que só se pode ver daqui. Não sinto como se estivesse apenas aqui dentro, é claro; sei que também ando pelo lado de fora, que meus olhos e minhas pernas também passam, e que ainda também observo.






Mas por muito tempo estive ali, querendo entrar, querendo saber que mistério havia naquela cara pintada, que tristeza tinha ele por debaixo do sorriso. Embora o colorido da roupa e da maquiagem correspondesse a um típico palhaço de circo, alguma coisa havia nele de incomum, que apenas eu podia perceber, pelo muito tempo que fiquei observando. O lado esquerdo do rosto, vez por outra, parecia torcer-se, e o vermelho da boca tornava-se fosco, perdia toda a vida. E pelo translúcido daqueles olhos eu via algo se mexendo dentro, fundo, fundo, e o segredo detrás dos olhos pedia uma aproximação maior, que eu estava disposto agora a enfrentar. Eu queria entrar, e a porta a dizer-me não.


As portas nem sempre são o melhor caminho. E, naquele dia, não sei se por um aumento incontrolável do desejo de tê-lo em minhas mãos (e ver de perto o quanto aqueles olhos eram transparentes) ou por medo de perdê-lo, de perder aquele mistério todo sem saber, decidi que ia entrar. Eu sabia que podia entrar, ainda que a porta estivesse fechada para mim: já havia sentido antes, numa das vezes em que pude ver o algo que se mexia em seus olhos.


As portas nem sempre são o melhor caminho. Por muitas horas (parece-me que das oito da manhã às dez da noite) eu fiquei parado em frente à vitrine, com os olhos grudados na cara verde-amarelada do palhaço de pano. Nesse meio tempo, pude compreender muita coisa. Percebi que o vermelho do nariz e da boca não combinava com nenhuma das outras cores, parecia alheio, artificial. Pude entender também que ele sentia. Inanimado, tinha vida. Mostrava-se vivo. E ele queria que eu olhasse. Queria porque, sempre que eu me afastasse um pouco, a vitalidade transparente dos seus olhos me acompanhava triste, como se me pedindo para voltar. E eu voltava, aproximava-me do vidro, tentava entendê-lo (por vezes tive a impressão de que ele queria dizer-me algo). Como, com aquelas tantas cores tão alegres, ele podia expressar melancolia?!


Eu sabia que podia entrar. Já havia quase entrado algumas vezes, mas contive-me: eu devia esperar a hora certa, o momento exato, (o que não demorou muito para acontecer); logo senti que o caminho se abria, que as possibilidades aumentavam, que o outro lado esperava-me ansiosamente, e os olhos do palhaço cresciam e se abriam e me deixavam ver tão fundo dentro dele que quando dei por mim o outro lado não parecia mais tão outro assim, era como se fosse o mesmo, ainda que o colorido de dentro contrastasse com os tons de cinza do lado fora.






E o efeito não foi assim tão mágico, pode-se dizer que foi até natural, comum. De repente dentro com alívio. Mas é claro que essa naturalidade só foi e só é possível porque estou agora dos dois lados. Estou aqui dentro, estou aqui fora. O vidro continua ali, mas é como se não estivesse, porque a transparência agora é dupla, de dentro para fora, de fora para dentro. E o colorido de dentro, misturado com o pardacento do lado de fora, resulta em cores enigmáticas, extraordinárias, cores impensáveis para quem está apenas fora, ou apenas dentro, cores que são visíveis somente para o olhar que se cruza de frente consigo mesmo.


Talvez o que ficou do lado de fora ainda esteja doente, ainda pense em suicídio. Porque a tristeza com que me olho é medonha, angustiante. Ele sabe (e eu sei) que o palhaço aqui dentro é uma parte nossa, uma parte que nunca imaginamos ver assim, frente a frente.


Merda

O cheiro de merda já estava espalhado pela casa toda. Tudo fedia muito, até mesmo o quarto, que antes parecera intransponível, invulnerável. O cheiro de merda que havia na casa me ardia o nariz.
E quando vi que todas as minhas roupas estavam sujas de merda, e que até nas camisas de seda havia merda sujando tudo, e que nas roupas de cama espalhava-se também a merda, quando vi que tudo estava contaminado, tive ainda uma surpresa: um homem vestido de branco que cheirava a talco apareceu na porta dizendo que eu não poderia nunca mais livrar-me do fedor e da sujeira, e que se algum dia eu tentasse jogar fora aquelas roupas todas em que havia tanta merda podre eu seria castigado.
Que na sala e até mesmo na cozinha houvesse tanta merda tudo bem, mas agora que eu sabia da imundície em que se encontrava o quarto, tudo parecia mesmo perdido.
Como eu poderia sair à rua se minhas roupas estavam sujas e fedendo a merda? E mesmo que eu saísse nu, o cheiro estaria ainda entranhado, tudo porque no quarto também havia merda, também havia o maldito fedor.


E o outro sentado, a escrever. Parece inerte, indiferente às mudanças que temos sofrido. Afinal, qualquer mudança que possa ocorrer comigo diz respeito também à ele. Mas é sempre a mesma coisa, ele prefere acreditar que não acontece nada, que tudo é mesmo sempre igual. Nos últimos tempos, ele nem me olha muito. Tem falado comigo muito pouco, quase nada, apenas o necessário para que sigamos vivendo. Decidiu isolar-se, como se pudesse viver sem mim. Desfez-se de todos os espelhos da casa, e parece não sentir esse cheiro horrível que cresce cada vez mais.


O tempo passando e o mesmo maldito odor a entranhar-se em mim, nas coisas, no ar da casa toda. E com a casa inteira contaminada eu não podia defender-me, todo e qualquer esforço seria em vão.
Decidi deitar-me, procurando respirar, o mais que pudesse, pela boca. Assim o cheiro que invadia minha alma e meus sentidos era menos forte, rasgava minhas entranhas um pouco menos. E depois de alguns dias assim deitado, sempre olhando fixamente para o teto, um teto branco que devia estar também fedendo a merda, baixei meus olhos um pouco (uns olhos já cansados e duros e secos de tanto olhar pra cima), olhando em direção ao ventre, e tive uma surpresa aterradora.
Meu abdômen havia crescido muito, e minha pele estava toda rachando-se, com uma coloração estranha, um pouco arroxeada. Cheirei minhas mãos, minhas unhas, meu hálito. Agora tudo fazia sentido. Não era da casa, nem das roupas, e sim do meu próprio corpo que se originava o fedor. Eu estava apodrecendo, e sentia que, dentro do meu ventre, algo parecia vazar dos intestinos para dentro de minha própria cavidade abdominal, uma espécie de líquido. Eu estava apodrecendo.
Não tive medo. Sabia que pelo menos uma parte minha aproximava-se do fim (já que ele havia decidido não se envolver, vivendo no seu mundinho fechado, como numa pequena farsa). Não havia mais o que fazer. Continuei deitado por um tempo, tranqüilo, até que percebi que metade da minha perna esquerda já se havia transmudado totalmente. Um grande bloco marrom. Levantei-me. Minha perna se desmanchou no piso. O corpo inteiro mudando de cor, as partes caindo, juntando-se ao grande monte.
Sinto agora esta minha parte dividida em milhares de outras partes minúsculas, sinto minha vida pulsar em cada larva que caminha pelo chão. Nunca pensei que, sendo uma larva, ou milhares de larvas, continuaria pensando. Sigo pensando e continuo sentido o cheiro, enquanto o outro escreve, sentado, sem nenhuma mudança aparente. Comunicamo-nos, ainda. Ele sabe que nós estamos aqui no chão, caminhando, comendo os restos do que um dia fui. Ele continua vivendo normalmente, por vezes até sorri, conversa consigo mesmo, mas não pára de escrever. Tudo é ilusão: nós, agora larvas, sabemos que para ele também não há muito tempo. Já começa a nascer um novo cheiro, um cheiro ainda mais podre, que exala do seu corpo. Sabemos que ele pensa não ter sido contaminado, que acredita estar a salvo, mas em breve chegará o momento em que estaremos novamente juntos, aqui no chão, unidos, numa única massa disforme.

O livro dos livros

Foi justo naquela tarde, precisamente na véspera do meu quadragésimo primeiro aniversário, que todo este estranho pesadelo começou. Parece-me que não chovia, ou, se chovera, havia sido pouco. Lembro-me, porém, com perfeita nitidez, que era uma tarde bastante cinza, carregada, e que o frio lá fora, cortante e asperamente agressivo, congelava tudo. Eram cinco horas da tarde... São cinco horas da tarde... Sempre serão (e isto me assusta, a ponto de gelar-me até o mais profundo dos ossos) cinco horas da tarde, daquela tarde, desta mesma tarde, de uma tarde sem fim. As estátuas lá fora (assim as chamo porque, dessa forma, pareço tranqüilizar-me de certo modo) continuam duras, rígidas, em posições que me deixam cada vez mais desesperado – posições que parecem esboçar um movimento, que tentam como que avisar-me de uma ação iminente. Mas é só ilusão. Sinceramente, no mais profundo de meus nervos, sinto que não irão se mover. Alice continua ali parada, alimentando os peixes, que também não se movem. Contudo, o que mais me deixa perplexo e sobremaneira incomodado é aquele maldito filete de comida que pairou no ar, imobilizado, e que escorre da mão semi-aberta de Alice e toca, delicadamente, de maneira quase imperceptível, a superfície lisa e inerte da água; uma água que não apresenta qualquer sinal de ondulação. Não sei ao certo quantos dias (ou serão semanas?) transcorreram desde aquela tarde cinzenta. Torna-se, quanto mais o tempo passa (se é que o tempo, pelo menos da forma como o conhecemos, de fato ainda existe), cada vez mais difícil referir-me a qualquer fato que apresente alguma conexão com aquela maldita tarde. Isso tudo porque sinto, juntamente com essa quase insuportável angústia, não possuir recursos para aludir a esse dia. Poderia dizer, por exemplo, “esta tarde”, tomando como referência a inércia de tudo o que está, neste exato momento, ao meu redor; ou, igualmente, “aquela tarde”, haja vista a distância temporal que sinto existir entre o instante em que escrevo estas linhas e a ocasião em que tudo parece ter-se transformado. Entretanto, talvez nada se tenha transformado; é possível que tudo, em verdade, tenha simplesmente parado de transformar-se, e que seja eu o único a seguir pulsando, vivendo, mudando e movimentando-me. Mas não. Eu até pensaria isto se não tivesse, algum tempo atrás (não sei dizer se horas ou dias), escutado aquele estranho ruído que veio subitamente do porão. A primeira sensação que tive foi de extremo pavor, uma espécie de vertigem, seguida de um intenso tremor nas pernas, acredito que pelo simples fato de que meus ouvidos já se haviam habituado profundamente, e não sem um natural esforço de minha parte, ao silêncio absoluto. Sentei-me no sofá. O coração batia-me com violência, como se quisesse saltar-me peito afora. E como foi penoso levantar-me! Com muito esforço, porém, agarrando-me às bordas sofá, coloquei-me de pé, e, neste exato momento (apenas alguns poucos instantes depois de meus tímpanos haverem captado aquele misterioso rumor), um outro sentimento invadiu-me o espírito. Senti não sei que espécie de euforia, que foi aumentando, quase a ponto de tornar-se incontrolável. A simples idéia de que “alguém” ou “alguma coisa” poderia estar-se movendo dentro daquele porão, viva, incólume, ainda não afetada pelo estranho fenômeno, enchia-me de uma alegria esquisita, o que me colocou nos lábios um sorriso parvo, que talvez tivesse um aspecto um tanto doentio. Então eu não seria o único. Não seria o único ser ileso àquela terrível paralisia. Haveria outro, ou (quem sabe?) até mesmo outros iguais a mim, imunes como eu. Caminhei, tomado por uma curiosidade aterradora, porém não sem conservar certo medo, em direção à porta que dava acesso ao porão... A cabeça, mergulhada num turbilhão de pensamentos, dava voltas, doía-me até. Vagarosamente, e com um crescente receio a mordiscar-me o rabo do espírito, fui-me aproximando. O medo crescia. Crescia. E, de repente, do rabo foram-se também as pernas e o resto todo. Acabei por sentir-me, outra vez, submerso num violento estado de pavor e desatino. Mas continuei, segui aproximando-me. “Há de ser...”, pensava, “há de ser alguém... alguém com quem eu possa conversar... há de ser, há de ser...”. E assim tomei um pouco de coragem e pus, ainda que timidamente, a mão na maçaneta. Foi quando um mau-pensamento, um maldito mau-pensamento me gelou a espinha: “Mas... e se não for!?”, cogitei, “e se não for ninguém, e se não for NADA!!!” Certamente eu havia empalidecido. Meu rosto parecia como que de pedra, e um suor abundante e frio encharcava-me a roupa. “E... se for tudo apenas... apenas... loucura da minha cabeça, um simples devaneio?!”, pensei, retirando a mão da maçaneta. Não. Eu não podia entrar. Não podia admitir a simples possibilidade de que tudo pudesse ser apenas fruto da imaginação; seria por demais doloroso. Eu já havia sofrido tanto nos últimos tempos que não podia arriscar. “Não entro. Então está decidido, não entro”, disse para mim mesmo, sinceramente resolvido a não adentrar e, já no mesmo instante, dando as costas para a porta e caminhando na direção contrária. Mas foi justo aí que escutei, outra vez, e agora um pouco mais nítido que antes, o tal barulho. Era como se estivessem derrubando um caixote ou coisa semelhante. E, logo em seguida, ouvi, claro como esta folha de papel em que agora escrevo, um ruído de pisadas. Eram pisadas, eu tive certeza. Pisadas na escadaria do porão. Súbito, corri em direção à porta, agora sem esperar que pensamentos maus me impedissem de abri-la. Girei a maçaneta e escancarei-a, descendo imediatamente uns dois ou três degraus...

*****

 Mais vivos do que nunca, no final da longa escadaria, pude distinguir aqueles dois pequenos olhos brilhantes, e prontamente os reconheci. Eram aqueles mesmos olhos que tanto me haviam incomodado, torturado, hipnotizado. Eram olhos maus. E, não sei por que razão, eu os havia esquecido por completo assim que começara o período da inércia. Desci as escadas bem devagar. Ficamos parados, frente a frente. Eu, sem dizer palavra, sentia-me perplexo por não haver pensado que, por certo, só poderia ser ele. “Como não lembrei dele, como?!”, eu me interrogava, numa angustia que parecia não ter fim. Narciso olhava-me fixamente, como sempre fazia, numa aparente tentativa de hipnotizar-me. Sua pelagem amarelada realçava-se na escuridão da sala. Inesperadamente, soltou um grunhido medonho, e ficou caminhado de um lado a outro, na minha frente. Depois, como numa crise de nervos, começou a correr de maneira estranha. Ia até o armário e tornava a aproximar-se de mim, como se me chamasse. Nunca havia agido com essas maneiras, nunca. E, pela primeira vez em muitos anos, confiei em Narciso, e até me pareceu que ele tentava avisar-me sobre alguma coisa. Eu já teria matado o gato há muito tempo, não fosse por Alice, que insistia em defendê-lo, em dar razão a ele, por ocasião de nossas terríveis brigas. Desde que sofri aquelas dolorosas mutações, desde o dia em que me tornei outra pessoa, passei a odiá-lo. Porque ele foi o único que soube, o único que soube de toda a verdade, foi ele o único que assistiu à minha decadência. Como odiei Narciso! Por diversas vezes estive a ponto de matá-lo. Era o meu verdugo, o meu algoz. Eu o odiava, creio que ainda odeio, ainda que agora entenda de forma muito mais clara tudo o que aconteceu.

*****
 Narciso insistia em emitir aqueles grunhidos assustadores e continuava a acercar-se do tal armário. Parecia mesmo preocupado com alguma coisa. Voltava até mim, rodeava-me as pernas, e corria novamente até o armário. Decidi então verificar se havia algo de interessante na agonia do gato. Abri as portas do armário. Havia, numa prateleira suja e empoeirada, um velho livro. No mais, estava vazio. Agarrei o livro, limpei um pouco do pó e fui abrindo-o devagar. Narciso parecia agora um pouco mais calmo. Porém seus olhos acompanhavam todos os meus movimentos com muita atenção. Comecei a perceber que havia algo de estranho. As primeiras páginas estavam em branco, mas continuei folheando o livro. Nada. Somente papel em branco, já um tanto comido pelas traças. Mas eu não desisti, vasculhei-o até a última página, e tive então uma surpresa. 

*****

Foi justo na última página do livro, depois de tê-lo folheado inteiro, que encontrei um pequeno texto, de mais ou menos vinte linhas. Não ouso repetir aqui o que havia naquela página, só posso dizer que aquilo me deixou tonto, assombrado. Um segundo e o universo inteiro veio abaixo. Senti-me vazio, sem sentido. Nada mais parecia ter coerência. E, estranhamente, um outro sentindo, até então desconhecido, parecia nascer. Nesse momento, Narciso, num impulso, subiu correndo a escadaria. Não hesitei e corri atrás dele, ainda com o livro na mão, e quando cheguei ao primeiro piso percebi que ele me esperava, observando-me, agora calmamente, sentado perto da porta de minha biblioteca. Caminhei devagar, não sem conservar certo temor, e adentrei.

Nenhum livro! Nenhum maldito livro! As prateleiras estavam todas vazias. Procurei, arredei estantes e escrivaninhas, levantei tapetes até, como num acesso de loucura, mas nada encontrei. Vasculhei minhas gavetas em busca de anotações que havia feito; tentei, em vão, encontrar esboços de contos e romances meus; procurei por agendas, mas não havia nada: minha biblioteca estava vazia. E tudo, dentro de casa e na rua, continuava ainda sem se mover. Reli a maldita página do livro empoeirado, fiquei matutando por um tempo. Desci novamente até o porão. Narciso sempre a acompanhar-me. Retornei e sentei-me no sofá. Por que diabos alguém deixaria duas centenas de páginas em branco e escreveria, na última página, essas vinte linhas assombrosas. Foi então que entendi. As páginas em branco, o sumiço dos livros e dos meus escritos, tudo começou a se encaixar. Agora, neste momento, em que tudo parece esclarecer-se, me parece estranho também que um homem guarde centenas de livros em uma biblioteca e, ainda assim, continue escrevendo outros livros. Serão esses escritos NOVOS livros ou os MESMOS livros repetindo-se? Não importa, tudo o que pode ser escrito pelo homem encontra-se naquela página de vinte linhas, mas sem as páginas em branco não somos nada. Quando cheguei a essa conclusão, percebi que o filete de comida que caía da mão de Alice, e que antes estava paralisado, começou a se mover. A comida tocou a água e produziu ondulações, eu pude ver isso com muita clareza. Corri até a biblioteca e lá estavam todos os livros de volta. Abri as gavetas e encontrei meus escritos. Pelas janelas pude ver as pessoas andando e a neve caindo. Então Alice veio até mim, sorrindo, e beijou-me a face: - Você parece preocupado. Está suando. Houve alguma coisa, meu amor? Demorei um pouco a responder, agora quem se sentia petrificado era eu. - Não, Alice, agora está tudo bem. Nós estamos bem. Eu menti. Confesso que menti para Alice. Ela estava bem. Mas eu não. Para mim, ainda são cinco horas da tarde daquele mesmo dia gelado e nebuloso.