sábado, 10 de outubro de 2009

Depois do homem

Seis horas da manhã. É inverno e o sol ainda não nasceu. Em sua toca, José acorda cansado, barriga vazia. A fome dura castigando o em de dentro, no mais fundo, corroendo o que quase já nem há para ser corroído: a própria carne. Fome doída fome. É preciso ir atrás de comida, catar papéis e latas pelas ruas da cidade, o lixo daqueles outros seres que não são Homens, mas que se parecem com Homens.


José é Homem até as entranhas da cabeça aos pés. Os outros, os que vivem na cidade, têm cinco dedos robustos em cada mão, dentes bons e uma mordida tão forte capaz de mastigar moendo tudo. Mas José tem poucos dedos gastos carcomidos, uns dois ou três em cada mão, e já não pode apertar quase nada. Os dentes, já os perdeu quase todos, e sua mordidinha é tão fraca que já não pode nem roer os duros ossos...

José sempre quisera ter dentes bons e dedos fortes, muitos muitos dedos fortes... Não por achar bonito e elegante não ser Humano, mas apenas pela necessidade da sobrevivência, para dar continuidade à sua espécie. Mas agora ele sabe que é impossível conseguir próteses; José está velho e doente, e não há mais tempo para nada.




II


O sol começa a despontar no horizonte e José sai de sua toca. A fome aperta ainda mais. Na parada de ônibus, outros Homens esperam com rostos doentes barbas crescidas e olhos cansados de uma noite mal dormida e fria. Esperam em silêncio, como zumbis. Todos esses poucos Humanos que ainda restam foram contaminados pelo vírus letal. A moléstia os enfraquece a passos lentos, e para eles não há defesa. Para os não-Humanos, entretanto, esse vírus não é nem um pouco prejudicial; pelo contrário: ao serem contaminados ganham ainda mais vigor (trazem o vírus encubado e se alimentam dele).





III


O ônibus chega e os Homens entram calmos calmos com movimentos maquinais. No primeiro banco está sentado um senhor gordo, de chapéu largo, camisa xadrez e botas muito lustrosas. Este senhor não é um Homem, mas se parece com os Homens, apenas por fora. Há vários outros de sua espécie, aglomerados em sua volta, protegendo-o de uma eventual situação de perigo. A entrada de José e dos outros Homens parece não agradar a este senhor, que os olha com cara feia e diz para os outros não-Humanos:

“Fiquem atentos, já chegaram essas coisas, essas criaturas nojentas!”

José está cansado, as pernas tremem, tremem. Ele olha para os bancos do ônibus, que, com exceção daquele em que o senhor gordo esparrama o seu pesado corpo, estão todos vagos.

“Que tal se eu me sentasse um pouco?... estou tão cansado...”, pensa José.

De quando em quando, o senhor gordo olha para os Homens com arrogância e faz: “humm!”. José reflete mais um pouco e, finalmente, senta-se num dos bancos, sentindo um alívio profundo nas pernas doloridas. Porém os outros Homens nem se arriscam, continuam de pé. O senhor gordo de chapéu largo, ao perceber que José está sentado, recebe aquilo como uma afronta:

“Hei! Mas o que é isso!? Que absurdo! O que é que você está pensando, coisa maldita!? Levante já este traseiro sujo do meu banco!”

José não compreende nada e fica atordoado.

“Mas, senhor, os bancos estão todos vagos, e eu estou tão cansado... Sou um homem velho e magro, e o senhor até que está bem gordo...”, responde José, humildemente, ao que o senhor logo rebate:

“Não me interessa, seu atrevido! Se eu comprei todos os lugares, então todos os lugares são meus, e não quero que nenhuma coisa inútil e insolente como você coloque o rabo imundo nos meus bancos!”

Nesse momento, o motorista, acostumado com essas situações corriqueiras, olha para trás sacudindo a cabeça e apertando os lábios, com desdém.




IV


José desce do ônibus no centro da cidade e vai caminhando pelas ruas, procurando alguma coisa para catar (o tão procurado lixo daqueles que não são Homens, mas que se parecem com Homens). Esses outros seres esbarram em José, mas nem o percebem. É que José não usa chapéu de abas largas, não possui botas lustrosas de couro duro, e o seu casaco está muito velho rasgado e quase já não esquenta Nada.



José segue pela calçada, a fome aumentando a fome, os poucos dedos impotentes com vontade de apertar, a mandíbula desdentada e fraca sentindo um desejo tremendo de morder morder mordeeeeerrr. Mas ele não pode. José sabe que tem de procurar algo bem macio e que possa ser engolido inteiro, de uma única vez. Saborear o alimento é coisa que José nunca conseguiu: como todos os outros Homens, já nasceu meio desdentado , e sua língua é tão dura e tão seca que ele já nem sente gosto nenhum de Nada Nada...NADA.



José sente o frio batendo no rosto emagrecido pela fome estalando na pele um açoite, mas continua calmo andando lento. Súbito, José sente uma dor doída dentro algo como um quebrar de ossos. Ele pára, leva a mão ao peito, engasgando com aquela dor tão forte tanto. José tenta gritar alguma coisa, mas a voz sai baixinho, muito baixo mesmo, um quase sussurro:



“Ajuda...Ajuda...”



Ninguém o ouve. Não há por perto nenhum Homem: todos que estão por ali são daquela outra espécie. E a rua um turbilhão, num caminhar contínuo de criaturas se esfregando umas nas outras. Numa esquina, dois sujeitos parados conversam alto, soltando gargalhadas.



“Ajuda...Ajuda...”



Ninguém. José tenta avançar um pouco mais, um pouco mais apenas. Aproximando-se dos dois sujeitos que conversam rindo alto, José implora:



“Ajuda...”



Mas eles continuam conversando, rindo cada vez mais alto. Há outras criaturas pelas ruas também, e quem olha para essas criaturas com o olhar desatento pode até dizer que são feitas de carne e osso, mas é pura ilusão: o interior de seus corpos é formado por tilintares de metais brilhantes e suas peles constituem-se de papéis coloridos camuflados, pintados com cores postiças de inúmeros números infinitos. Alguns limpam as calçadas, desinfetando tudo tudo e arrancando as plantinhas que nascem por entre as pedras com suas folhinhas verdes cheias de vida, outros esfregam obsessivamente os vidros das vitrines das suas lojas, deixando-os cada vez mais transparentes, quase invisíveis ao olho Humano.



José, sentindo no peito aquela dor terrível, tenta agarrar-se aos ombros de um dos rapazes que conversam rindo alto. Mas ele nem se importa. Sem olhar para baixo, empurra José com suas mãos de cinco dedos fortes, afastando-o como quem afasta algo inútil. José cai logo adiante, e como se nada tivesse acontecido, os dois rapazes continuam conversando rindo muito alto.



“Ajuda...Ajuda...”



José agoniza. Muitos passam por ele na calçada, tropeçam no seu corpo, machucam seus braços e pernas, esmagam os poucos dedos fracos corroídos que possui. E não param; seguem em frente, na eterna busca dos tilintares metálicos vitais, sorrindo com seus dentes rijos e pensando: ”Vejam só como eu posso morder bem forte! Tenho uma mandíbula de ferro!” O mesmo pensamento ecoa pelas outras mentes não-Humanas:







“...mandíbula



                              de



                                          ferro...



                                                                      ferro...



                                                                                                                    FERRO...”











E José, pisoteado, implora:

“Por favor...estou morrendo...”

Nada. Vozes estrondosas gigantescas abafam os sussurros de José com gargalhadas trovejantes. Ele vai perdendo os movimentos. A dor é tanta, mas tanta, que já não há onde o que doer em lugar nenhum. A visão começa a turvar-se e o seu corpo vai diminuindo diminuindo cada vez mais...mais...mais... Agora José é um único ponto minúsculo bem no meio do seu próprio peito entrando num buraco escuro, que vai sumindo, sumindo, até virar um Nada.

Os outros que não são Homens mas que se parecem com Homens continuam pelas ruas, caminhando, passando por José, tropeçando em seu corpo quase sem vida, espezinhando, esmagando, sufocando José.

Nesse instante, uma criatura passa pela calçada carregando uma pilha de copos. Esses copos estão cheios de um líquido dourado e viscoso. O líquido transborda mas os copos continuam Vazios, Vazios. De repente a criatura esbarra em José e derruba os tais copos, quebrando-os em mil pedaços. Então, esse ser que não é Humano grita:

“Que merda! Quem foi que colocou esse entulho na calçada!? É preciso tirar essa coisa daí, isso está atrapalhando!”

Mas José agora já nem sente nem sofre nem pensa: o pontinho minúsculo que já era um Nada passou do Nada e agora é só a morte. E ali mesmo José apodreceu secou desapareceu voltou ao pó nunca mais foi visto e agora tudo é loucura e passou dos limites muito mesmo tanto quanto nunca antes.



V


E assim pereceu José, o Homem. O pai do Homem e o pai do pai do Homem tiveram o mesmo destino, e logo os irmãos de José, os outros Homens, perecerão também, dando lugar a essas novas criaturas, tão mesquinhas quanto orgulhosas cruéis e arrogantes com mordeduras fortes e muitos dedos dedos dedos de um metálico aperto duro e frio.

A invasão

...y al mirar la doble callejuela multiforme por el vidrio de la ventana, me di cuenta que el otro, el hombre de dos caras, me veía también a mi.. (Alfonso de la Peña)




Sempre que fecho os olhos. Agora tenho medo até. Ainda se eu pudesse não sentir, não ver, e se houvesse maneira de eu acreditar que tudo não passa de sonho, fantasia apenas, loucura, mas. Ele é quem decide as coisas por aqui, é ele quem brinca comigo me olhando com aquele olhar cretino, aquele olhar apertado que me lembra um risinho de deboche. Ele tem o poder agora (e como gosta de ser poderoso!). E mesmo com os olhos abertos eu posso senti-lo, posso ouvir as bobagens que ele diz usando a minha boca e a minha língua, sorrindo com os meus dentes. E observo o quanto gesticula, jogando meus braços de um lado para o outro, como se eu fosse um boneco de pano. Eu posso ver e sentir tudo isso o tempo todo, mas aquele olhar de riso debochado que tanto me tortura e que me machuca só de pensar, e que me deixa assim querendo que eu não fosse tão pequeno e não chorasse por dentro tanto, aquele olhar é só quando fecho os olhos.



Tudo (desta vez, a única de que tenho plena consciência) começou por volta de quatorze semanas atrás. Lembro que foi numa tarde clara de um dia muito quente que comecei a perceber que ele me habitava. Não sei dizer há quanto tempo morava em mim, mas é possível que sempre tivesse vivido ali, escondido em meu pequeno corpo desde o nascimento. O que importa mesmo é que (agora) foi nessa tarde, exatamente nessa tarde quente, que ele começou a manifestar sua terrível arrogância. Numa tarde clara. É verdade que os últimos tempos têm-se mostrado um tanto turvos, mas quatorze semanas atrás ainda havia certa claridade. Porque foi numa tarde bastante clara.



Não falava comigo no começo; apenas respondia aos outros, por mim, coisas que eu não ousaria responder, respostas que por muitas vezes se mostravam contrárias ao meu próprio pensamento.



Estava sempre ali, e às vezes (como num espelho) eu podia vê-lo, sempre que eu fechasse os olhos. Como num espelho porque, embora ele usasse roupas um tanto quanto extravagantes e tivesse um corte de cabelo nada discreto, com pontas compridas alouradas e uma franja muito azul, num colorido que nunca me foi próprio, parecia-se comigo na aparência. E aquela franja azul me lembrava sempre o mar, porque quando eu ficava de olhos fechados olhando para ela eu via a imagem de uma onda muito azul, batendo nas pedras e voltando, e batendo, e voltando, e batendo de novo, calma e sempre a mesma água, sempre uma onda muito azul, porém como se fosse outra.



Parecia-se comigo por trás da máscara. Em verdade, ainda se parece. (tenho falado disso tudo no passado porque ele, agora, já não é mais ele, embora ainda esteja aqui).



Aos poucos fui tentando manter com ele uma espécie de diálogo, eu tentava comunicar-me, perguntava coisas (por que estava ali? o que queria? por que me fazia sofrer tanto? e por que eu sentia aquela vontade de chorar o dia inteiro até que meus olhos secassem, enquanto ele, debochado e arrogante, ria sempre?). Mas ignorava-me por completo. Só pensava em arrotar bobagens sem sentido, em distribuir aos outros suas opiniões estapafúrdias. E o que me dava mais nojo, a ponto de fazer-me vomitar às vezes, era o fato de ele usar a minha boca para falar aquelas asneiras todas, aquele lixo passava pela minha própria língua, deixando-a pegajosa e gosmenta de tanta imundície. E usava minha boca como se fosse mesmo sua, o que fazia com que eu parecesse, para os outros, diverso do que realmente era. Não sabiam que ele, aprisionado em mim, fazia-me de escravo, e que seu descaso não me dava chances de liberdade, e sequer podia eu entendê-lo.



De todos na casa, apenas o Narciso soube dele. Os outros só pensavam em dizer que eu estava culpado. Que eu era o responsável por toda aquela estranheza dentro de mim, por tudo de errado que ele fiz sem que eu quisesse, por todas as coisas que eu falou sem ter vontade. E a casa, embora estivesse cada vez mais cheia, continuava vazia para nós. E cada um (pai, mãe, irmão, tio, avô, e até mesmo a irmã que sempre parecera imune a qualquer doença) se escondia, se apertava no seu canto, e os quartos da casa continuavam sendo os lugares mais habitados. Não fosse essa distância talvez até soubessem dele, e pudessem me ajudar, e até fizessem com que ele não me doesse tanto assim.



Mas o Narciso, ah!, o Narciso sim é que sabia de tudo. Apenas ele, com aquela transparência de vidro que sempre carregou nos olhos, deixava entrever que conhecia a minha desgraça. Estava consciente, eu sabia, apesar de haver tentado dissimular, como sempre fazia com tudo. Um dissimulado, o Narciso. Mas aqueles grandes olhos transparentes me faziam sentir que ele havia testemunhado tudo: desde o momento em que eu fora invadido até o começo da dominação. E Narciso andava quieto, cabisbaixo (há tempos não me pedia um carinho), mas passava horas a observar-me, dizendo-me, com os olhos e com aquele meio sorriso felino, que sabia.



E no meio de um delírio tive uma visão que me encheu o peito de esperança: lá em casa, todos nós agora tínhamos cabeças de gato, felpudas, macias, e nossos olhos se enchiam de transparência e vida. E logo me veio a figura de Narciso, e pensei o quanto ele era carinhoso e nunca tinha medo de pedir e dar carinho aos outros, embora por vezes até pudesse arranhar ou morder alguém. E então tive aquela idéia que me encheu de alegria: meio gatos, meio homens, agora poderíamos ser um pouco mais dissimulados, e, fingindo sentir aquilo que sentimos e que tanto nos machuca, encostar-nos uns aos outros pedindo um afago, como fazem os gatos, como o Narciso sempre fez. Assim, poderíamos fingir que o amor que sentimos uns pelos outros não nos dói tanto assim, e poderíamos até dissimular que todo esse amor nunca existiu, e que nós, agora gatos, só queremos que as nossas mãos acariciem nosso pelo macio, só por um instante.



Tanta gente naquela casa e o gato era o único que sabia. A criatura dentro de mim crescendo, e aumentando mais ainda o sorriso debochado daquele olhar. Quanto mais ele me persegue, quanto mais ele me castiga com seus golpes sujos, mais eu me apego ao gato, como se ele pudesse me salvar. Mas o Narciso tem andado meio afastado, já não me observa tanto. E agora, no momento em que descubro que Narciso se afastou de mim por medo, tudo começa a desmoronar, porque conheço o Narciso como ninguém e sei que de mim ele jamais teria medo.



E habitando aquele corpo fui crescendo... Este sorriso debochado nos meus olhos o gato já deve ter notado, o mesmo sorriso que o outro também via dentro dele, sempre que fechasse os olhos.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Uma conversa proibida

"Mientras mi abuela miraba diariamente las fotos antiguas, tres o cuatro veces por día, yo empezaba a sentir algo muy raro, como una especie de curiosidad creciente. Ella las miraba y me contaba historias; cada foto tenía su propia historia. Me gustaban las historias y también las fotos antiguas. Después, con el tiempo y la lectura, conocí a Julio, y todo se me aclaró bien. Quizá por eso sea yo hoy un cuentista." (Autobiografía de Alfonso de la Peña, tomo II, cap. XVI, p. 235)



¬– Nunca pude entender muito bem as cores, são tão instáveis, transitórias... – murmurou o pequeno rato, mais para si mesmo do que para qualquer um dos utensílios domésticos que estivessem por ali, atirados pela pia. Mesmo assim, uma xícara velha, que há dias andava suja, esquecida, ainda com um resto de leite coalhado no fundo, contestou:

– As cores são assim mesmo, amigo, variam muito...

E o rato, com uma expressão dura e pensativa, como alheio ao comentário feito pela xícara, continuou.

– Eu podia jurar que ontem, quando estive aqui, a porta do armário era vermelha... e não cinza. Isso tem acontecido muitas vezes, essas mudanças de cores vivas para tons acinzentados.

– Era mesmo vermelha, a porta ¬– confirmou a xícara velha – Mas as coisas não são assim tão simples. A verdade é que as cores não tem culpa. São obrigadas a mudar de tom sempre que sua vivacidade assuste ou incomode alguém. Você sabe de quem eu falo quando digo alguém, não sabe?! Eles ficam cuidando tudo lá de fora, e existem políticas e até mesmo campanhas para que as cores aqui de dentro mudem sempre para tons pardacentos. Você mesmo, ontem, estava todo cheio de pintas roxas, e hoje, entretanto...

Atônito, e com o olhar já um pouco entristecido, o pobre ratinho indagou:

– Entretanto o quê!? Não me diga que minhas cores mudaram!!!

– Ãhn... é... mais ou menos. Quero dizer, você está em processo de transformação.

– Como assim? Ainda posso ver minhas manchas roxas, estão bem aqui! – disse o pequeno roedor, apontando para uma das marcas coloridas imaginárias.

– Sim, meu caro, isso é o que você vê. Isso também é trabalho deles; fazem você continuar acreditando que é colorido quando, no entanto, já está acinzentando. Eles ouvem tudo, sabem de tudo, e fazem o que podem para dominar a vida aqui dentro. A verdade é que temem uma rebelião, por isso é preferível, para eles, que pensemos que tudo está muito bem...

E o rato, cabisbaixo, com lágrimas brotando dos olhos, perguntou:

– Mas como você tem consciência de tudo isso? Como sabe de tanta coisa?

A xícara sorriu.

– Amigo, olhe para mim, sou apenas uma xícara esquecida e suja, ninguém lembra de mim. Fico o tempo todo aqui, observando. Percebo algumas coisas, mas... não posso fazer nada. Além disso, essa pressão que vem de fora para dentro me impossibilita qualquer movimento. Estou como morta, entende? Eles preferem assim, que uma xícara não seja nada além de uma xícara. Minha função é essa, ficar aqui parada com leite coalhado no fundo, até que alguém decida me usar.



Subitamente, ouvem-se passos e gargalhadas trovejantes no corredor. O diálogo pára. A xícara volta a ser xícara, o rato volta a ser rato. As paredes e o chão começam a tremer. Eles tentam arrombar as portas, furar os tijolos, os ossos, a carne. Precisam, de alguma maneira, colocar um freio na torrente do imaginário. Enfiando suas caras medonhas em todas as janelas ao mesmo tempo, gritam repetidas vezes: “a única fonte possível é a realidade!”.

E, grudados atrás das orelhas daquele espécime (o último ainda verdadeiramente vivo), tentam rasgar sua pele, serrar os seus ossos, virá-lo do avesso. Tudo isso porque precisam saber, ansiosamente, qual a razão de ter inventado aquela conversa, que sentido tinha aquele diálogo e qual seria sua relação com o mundo real.